quinta-feira, 15 de julho de 2010

dois

DEPOIS


Muitas vezes é melhor não levar um encontro a sério, incluindo aí o que tive com Bernardo. Aquilo não tinha a menor chance de ir além de uma noite de loucuras e a vida deveria seguir após o beijo, as carícias, as lambidas, a mão lá, a boca ali, o sexo maravilhoso que terminou com nossas pernas entrelaçadas no sofá-cama.

Ele acordou de madrugada tentando não fazer barulho, devia estar acostumado a sair assim, sem se despedir. Puto! Mas eu despertei assim que ele se mexeu sobre mim, senti que iria me esvaziar de sua presença e sem abrir os olhos tentei segurá-lo com pernas e mãos e todas as minhas forças. Puxei, agarrei, capturei o corpo quente de novo. Não vai, não. Ele me colocou de quatro, de costas para ele, em total expectativa, e me segurou, me apalpou e veio sem avisar. Não foi o que eu pedi? Gozei, posso dizer que gozei pela primeira vez nas mãos de um homem que não havia feito perguntas ou bebido comigo, que nada sabia de mim e ainda assim me tomava como se me conhecesse desde sempre. Isso me dava medo, mas também me excitava.

Não sei quanto tempo depois Bernardo se desgrudou de mim e vestiu a camisa xadrez e a calça e saiu. De propósito me fingi de bela profundamente adormecida e consegui enganá-lo, não queria cair na armadilha de perguntar se me ligaria um dia desses. Assim que a porta se fechou escorreguei da cama no escuro e fui fazer xixi. Bem que a Karen podia ter trocado a lâmpada do corredor. Voltei me arrastando, o corpo entregue, mas satisfeito. De manhã ia me matricular no cursinho e tinha um teste do outro lado da cidade. Que horas mesmo? Tapei a cabeça torcendo para que não existisse essa história de sair de casa e eu pudesse ficar na cama até tarde.

Onde andaria Karen que não tinha dormido em casa? Depois sou eu que não aviso... Caí no sono pensando em Bernardo e no que veio depois.

Karen me tirou dos devaneios matinais. Foi entrando e avisou da porta que havia ficado só encostada, um perigo. Já pensou se um engraçadinho entra aqui? Falou, me virei, falou mais e tapei os ouvidos, falou sem parar. Socorro! Abri um olho ainda meio dormindo. Como ela consegue falar tanto? Reclamei do horário, eu sempre reclamava de ter que acordar cedo e dizer bom-dia. Qualquer outra criatura me mandaria à merda.

Karen nem deu bola, me puxou pelo pé.
- Sinto cheiro de sexo aqui. Sexo barato. Mas acho que foi bom, não foi? Sei que não foi com o Gabriel, porque ele ligou atrás de você. Muito folgado esse meu irmão. Pior é que tô achando que ele tá a fim de você.
- Ele anda me rodeando, mas não é nada.
- Cuidado com ele.
- Tá.
- Agora me diz quem é esse outro aí.
- Depois que você fizer um café bem forte pra mim.
Ela não se mexeu. Levantei, ela riu:
- Ele teve que abrir caminho nesse matagal? – riu mais. – Dessa vez você foi má. Podia ter dado uma aparada na cabeleira, né?
- Não enche! Eu gosto assim.
- E ele? Gosta de desbravar florestas? Quem é o cara mesmo?
Abri o jogo sem rodeios enquanto entrava no banho:
- É o cara da vizinha do lado, aquela peituda barulhenta.
- A Helen? Ai, não...
- Ai, sim! Eles brigaram feio ontem, dava para ouvir daqui. Ela mandou o cara embora e sobrou pra mim. Você conhece os dois?
- Pouco. A Helen às vezes bate na porta para pedir um cigarro ou o jornal. O cara é que quase nunca vejo. Ela disse que ele é escritor e jornalista, escritor ou jornalista, alguma coisa assim.
- E ela, faz o quê?
- É filha do dono do jornal onde ele trabalha.
- Caralho!
- Já pensou se essa mulher sonha que você dormiu com o homem dela?

Rimos. Só engoli um café preto, não entrava mais nada, e quis dirigir, já que Karen não fazia questão. Liguei o som. Stones... Please to meet you, hope you guess my name. Ia começar a cantar, mas o toque estridente do celular me interrompeu. Ai, Gabriel de novo não! Fiz sinal para não atender e entrei no estacionamento do cursinho mais distraída do que nunca. Bernardo sobre mim. Bernardo me segurando pela cintura e me comendo no sofá-cama que mal dava para dois. A música dos Stones ainda ecoava em minha cabeça: But what's puzzling you is the nature of my game... Ele tinha a pele quente, a boca faminta, meu corpo se encaixava no dele, se deixava levar… Como esquecer e transformar a última noite em passado?



8 comentários:

Dai disse...

Hei, não publica tudo aqui não que essa história vira romance, e dos bons!

beijo

Luna Sanchez disse...

Será que se a Karen tivesse visto o Bernardo mais vezes, também o teria pego? Han, han?

- Luna, tu bem que gosta de uma sacanagem, né?

- Eu? Imagina...e só impressão tua!

*_*

#Adorando

Beijo, Li!

ℓυηα

Marco Henrique Strauss disse...

Mais uma vez: muito bom. Continuo acompanhando tua história, fica cada vez melhor ou no mínimo no mesmo nível. Parabéns.

http://marcostrauss.blogspot.com/

Mônica Novaes disse...

Quantas novidades por aqui! ADOREI!! bjs

Milene disse...

Acho que precisa de mais de uma pra dar conta do Bernardo!:) A história está ótima, aguardo continuações hehe. Beijo!

Eder Asa disse...

Onde você arrumou essa inspiração? Quero uma igualzinha pra mim HAHA'

Ótima história! Quente!

Alline disse...

Dai,
na verdade é um, sim. mas nunca foi publicado. Não são muitas editoras que estão recebendo originais de autores desconhecidos, então eu resolvi deixar um rastro por aqui.
Se souber de alguma me avise, por favor. ;)

Beeijo

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Luna,
A vizinha matava a Karen!
Mas muita água ainda vai rolar debaixo da ponte, e outros caras vêm por aí. E com eles, outras pequenas sacanagens.

Beeeeeeeeeeeijo!

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Marco,
Ó, brigada pela força, viu?
Semana que vem tem mais. ;)

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Mônica,
Saudades de ti, mulher!

Beijos

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Milene,
Ele é uma figurinha difícil, sabe? Até irritante.
Não lembro se tem mais de uma mulher com ele na parada... são tantos capítulos... hehehe

Beeeijos

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Eder,
Com certeza um pouco das músicas que ouço quando tô escrevendo.
Acho que a tendência é ir esquentando mais. ;)

Eraldo Paulino disse...

Eu não havia tido tempo de ler as outras partes e aproveitei pra ler o que não havia lido.

Eu vou te dizer o que acho que já te disse antes. tu és uma das melhores fotógrafas do cotidiano. Tens uma forma incrível de apreender coisas que todos amamos sem notar.

Tenho certeza que é uma questão de tempo até publicar. Bjs!