quinta-feira, 11 de novembro de 2010

vinte

MUSICAL

Foram duas semanas de ensaio improvisando na guitarra. Sem Tom. De repente surgiu o amigo de um amigo de Eric se dizendo interessado na vaga. Vaga? Ninguém me avisou dessa vaga, senão eu mesma teria convidado pelo menos três conhecidos para o teste.

Ele se apresentou como Caio e pediu permissão para começar sem muita conversa. Sentei no fundo do bar em suspense. Ele não tocava guitarra apenas, também cantava, e bem! Se eu fizesse qualquer crítica iria parecer a invejosa da história. Deixei Samuel e Eric o acompanharem e saí para jogar uma água no rosto.

Os dois me olharam quando voltei, aguardando uma reação. Dei de ombros, depois fiz um sinal de positivo. Ia dizer o quê? Ele ou eu? Ele era mesmo bom e não havia nada que eu pudesse fazer. O próprio veio falar comigo:

- O que você achou?
Eu não iria mentir, não tinha coragem. Ele estava ansioso? Senti que eu estava.
- Por mim você fica. Acho que o Eric e o Samuel também gostaram.
- Você se importaria de dividir os vocais de vez em quando?
Pensei em gritar que não. Nunca.
- Pode ser.
- Canta uma comigo agora?
Quis bater nele.
- Pode ser.

No início cismei que não ia dar certo dividir o palco com ele. Mas ele estava ao meu lado e demonstrava disposição. Lá vamos nós! Deixei que ele escolhesse o tom e desse o primeiro acorde. E esperei que começasse a cantar. Caio me olhou e eu sabia que devia ir com ele. Cantamos uma atrás da outra, acho que foram cinco. Minha voz vibrava como nunca, eu não precisava pensar onde queria chegar. Ele não era fácil de seguir, e em vez de me desencorajar, isso me estimulava a querer alcançá-lo. Ele vinha para o meu lado no mesmo tempo, na mesma batida. Sua boca dizia, cantava, sussurrava, eu respondia o que ela queria ouvir com a mesma intensidade.

Por vezes ele me tocava o braço quando ia pegar o microfone, eu jogava o cabelo em seu rosto, nós ríamos. Caio se encostava em meu ombro, deitava a cabeça e cantava me olhando como se existisse grande intimidade entre nós. Aceitei o papel que a música sugeria e também me insinuei, passando a mão em seus cabelos, no rosto barbudo, nos lábios umedecidos de saliva e belas palavras. Eu desejei o que ele me oferecia, a voz límpida, os olhos claros sobre mim como faróis, a boca que cantava, a boca tão perto da minha. A boca perfeita para um beijo. O que tá acontecendo comigo?!

A música terminou e não emendamos outra. Paramos para nos olhar e tentar adivinhar o que viria. Apenas o microfone nos separava, e continuei desejando-o. Pousei a mão no ombro dele para diminuir a distância e sorri. Vai, pode me beijar agora.

Em vez disso Caio me abraçou forte e agradeceu com umas batidinhas de leve nas costas:
- Valeu mesmo! Você foi muito legal, cara. Teu nome é Nina, não é?
Levei a sério o banho de água fria e devolvi na mesma moeda:
- Meu nome é Nina, seja bem-vindo. Como é o seu mesmo?
Como se eu não soubesse. A química de instantes atrás se desfazia sem a música e eu ainda não tinha feito nada!
- Samuca, me dá uma carona?
- Vou dormir no Eric hoje, Ninotska.
- Eu posso levar você. Eu tô de moto.
Sim, Caio disse isso!
- Deixa só eu pegar a bolsa.
Não levei mais que um minuto para juntar minhas coisas espalhadas e jogar tudo na bolsa. Ele me esperava na porta como um bom menino.
- Eu não sabia como ia conseguir ficar sozinho com você.
- Você vai me levar? - fingi não entender.
- Como prometi. Você tem alguém te esperando em casa?
- Não.
- Vem comigo?

Sorri em resposta e ganhei o capacete reserva. Subi na moto para rodar com ele sem saber o destino. E quanto mais agarrava seu corpo mais crescia e expectativa de conhecê-lo, e quanto mais eu queria mais meus dedos faziam pressão no peito dele.

Caio me levou para muito longe, onde havia um jardim escuro e rodeado de silêncio. Parou embaixo de uma árvore. Foi ali o primeiro beijo e todos os outros. Eu diria até o fim dos meus dias que ele tinha gosto de música, algo que eu nunca saberia explicar nem queria entender. E por isso cantei baixo para ele enquanto me despia e via ele tirar a roupa. E cantei quando me sentou na moto e juntou meus cabelos nas mãos e puxou para trás. Eu não podia com ele, apenas deixei que viesse de uma vez, para estar mais próxima e poder cantar em seu ouvido. Se me arranhava o corpo com seus pelos, eu gostava. Se suava e pingava no meu colo, e esse suor escorria entre os seios e procurava meu sexo, eu delirava e ansiava por mais desse líquido que invadia meu íntimo e me fazia cantar mais alto e mais forte, até gritar por ele.

A noite não era mais tão fria e silenciosa como antes.



8 comentários:

Luna Sanchez disse...

Vivo de achar linda essa Nina e sua disponibilidade, a total ausência de puratismo bobo, a fome de vida, o orgulho que sente do próprio prazer.

Adoro, simples assim.

Beijos, Li, ótimo fds! =)

ℓυηα

vida cotidiana disse...

Nossa nessa moto quem não queria sentar, lindo texto. Com certeza viajei em suas palavras!!!! BJUS!

A Mina do cara! disse...

Sua personagem tem fogo e vai no que quer. Eu acho isso ótimo!

É um livro que vai colocando os capítulos aqui? To curtindo a história!

um beijo

Alline disse...

Luna:
Ela segue seus instintos, simplesmente. Se quebra a cara? Paciência. E lá vai ela de novo.

Também adoro minha filhotinha. Mas só me dá trabalho. rsrs

Beijão, Luninha, bom feriado pra ti!

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Ana:
Até eu. ;)
Brigada! Eu ando reescrevendo uns trechos, acho que ficaram mais interessantes agora.

Beijoss!!

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A Mina do cara:

Isso é tudo culpa da leitura da Anaïs, viu? ;)

É livro, sim. A primeira versão, a que mandei pra umas poucas editoras, é outra. A que você está lendo é uma nova versão, atualizada. Eu tenho que criar um link geral, ams sempre esqueço...
Valeu!
Próxima quinta tem mais.

Outro beijo

Marco Henrique Strauss disse...

Bom o texto; apesar de estar meio sem tempo, procuro sempre acompanhar teu blog, principalmente a tua série...hehehehe continuo fiel ao teu blog, embora dos comentários pouco aparecerem. Enquanto continua escrevendo, eu continuo lendo. Parabéns.

Alline disse...

Marco,
Por onde andas?
Xi, eu que tenho medo de ficar sem tempo. E acho que vou... mas vou tentar, fazer de tudo pra não parar. Porque se paro não volto mais.

Essa história ainda prossegue por mais algum tempo. Que bom que tu curtes!

Um abraço!

Eder Asa disse...

Sei bem o que é essa afinidade artística =X
Estava com saudades dessa história! Estou igual ao Marco, eu acho HAHA'

Alline disse...

Oi, Eder!
Nunca mais te vi...
Estamos todos na corrida, entonces.
E Nina prossegue...