quinta-feira, 26 de agosto de 2010

nove

EU NÃO, E VOCÊ?

A grana deu para chegar até a esquina. Agradeci em pensamento pelo taxista não ter ficado puxando assunto. Preferia estar quieta a falar com um estranho que provavelmente nunca mais veria pela frente. E também não era isso que me incomodava. Eu estava toda esfolada e cheia de sentimentos confusos. Um tanto decepcionada por não ter encontrado Lúcio. E pelo sexo com Gabriel, apenas razoável. Bonzinho, vai...

Minha única intenção era entrar em casa e me enfiar na cama e dormir até o almoço sem ouvir os sermões de Karen. O que não esperava era me deparar com a própria, adormecida no sofá na frente da TV ligada. Só me faltava... Acordou quando deixei cair uma sandália.

- Você chegou agora?

Ela olhou para o vestido de um jeito... Eu não tive nada a ver com isso, foi o Gabi.

- Cheguei.

- Se divertiu?

Ironia. Sutil, mas estava lá. Típico de Karen.

- Fui jantar com Gabriel.

- Você não disse que ia sair com o... o Lúcio?

- Não deu, isso foi coisa de última hora... – gaguejei.

- Por que você não atendeu minhas ligações? Eu ia convidar você para jantar comigo e com a Susi.

- Não vi. Tava no silencioso.

Outro olhar para o vestido.

- Deixa o vestido em cima da máquina. Amanhã eu conserto.

- OK.

Dormi o dia todo, esquecida de Lúcio e Gabriel. À noite fui atrás de Karen, ela estava distante:

- Tem um cigarro aí? O meu acabou à tarde e esqueci de comprar.

- Também estou sem.

Completamente seca.

- Você tá chateada?

Ela disfarçou:

- Cansada.

Achei que era por minha causa. Porque saí com Gabriel... Ciúmes? Ou só preocupação, como ela afirmou? Despenquei no colo dela para não deixar dúvidas de que estava ali. Karen acariciou meus cabelos em silêncio, enrolando pequenos cachos nos dedos.

- Vocês transaram?

Fiz que sim com a cabeça.

- Foi do jeito que você imaginava?

- Mmm... foi legal, mas acho que saí com ele pra tapar buraco – me agarrei às suas coxas.

Karen sorriu e voltou a fazer cachos nos meus cabelos. Ficou muito tempo com uma mecha entre os dedos. Enrolou, desenrolou.... Como se estivesse criando um clima para me dizer alguma coisa. E soltou:

- Você nunca beijou uma mulher?

- Você. Você me ensinou a beijar, lembra?

- Isso não conta, eu falo beijo de verdade.

- Então não. Você tá me cantando?

- Claro que não, sua tonta. Eu não preciso disso.

Às vezes tomávamos banho juntas e não vou mentir, eu gostava. Também dividíamos a cama de solteiro quando ela ia me visitar nas férias. De madrugada ela me abraçava de um jeito que me fazia pensar que era apaixonada por mim e não por Chico, como ela dizia. Mas não passamos disso e nunca houve razão para discutir o assunto.

- Mas você quer me beijar, né? – me fiz de boba.

- ...

- É estranho porque eu beijei Gabriel há algumas horas e você é irmã dele, e minha prima, e ele é meu primo... Que confusão!

- Para.

- Você bebeu?

- ...

- Karen!

- Bebi... Só uma taça de vinho.

Nossos lábios se tocaram com suavidade, se experimentaram, logo se afastaram. Houve uma troca de olhares, um sorriso trêmulo meu e mais nenhuma palavra. Era um beijo... interessante. De novo um roçar, Karen me mordiscou o lábio inferior, eu passei minha língua na dela, senti o gosto do enxaguatório bucal que não mascarava totalmente o álcool, nos beijamos sem parar.

O sofá era o lugar predileto de Karen. Ficamos ali sob a luz do abajur e não se falou mais de Gabriel. Enquanto eu me ocupava em descobrir seus seios, que eram iguais aos meus, só maiores, ela explorava meu corpo inteiro sem pudores, muito à vontade. Era gostoso, eu estava feliz. Gozava sem ter gozado ainda, por todos os poros. Karen não tinha um pênis, mas soube ser gentil me afagando ternamente no meio das pernas. Pela primeira vez. Inesquecível. Dava beijos rápidos, depois passava a língua, às vezes delicada, às vezes voraz, me chupava longamente. Até que que me fez sentir uma palpitação bem no meio de mim. Tremi, ela vibrou e eu explodi em contrações sem fim.

Dormimos juntas nessa e em muitas outras noites, nuas e livres. Ela continuava a ser minha melhor amiga e a prima querida que me dava abrigo, conselhos, broncas, carinho... E agora um pouco mais.


3 comentários:

Eder Asa disse...

É impressionante como você coloca essas cenas "ardentes" sem nem beirar a obsenidade (não que tivesse algum problema nisso, mas essa sutileza é mais chamativa, deixa sempre um 'quero-mais'). Reconheço isso em Luiz Vilela também, mas parece que lá é tão curto que não sacia, aqui sempre tem mais.

Sou muito fã!
Ósculos verdes!

Eraldo Paulino disse...

Cara... teus textos de quinta são de primeira linha!!!

Admito que já espero as quintas chegarem!

Bjs admirados!

PS: Você escreveu o melhor texto que já li sobre uma das minhas maiores taras!

Alline disse...

Eder:
Que bom que me achas sutil, porque eu às vezes me pego pensando se não poderia ser mais light.

Valeuuu!
Beijobeijo

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Eraldo:
E eu fico ansiosa pra postar. rsrs
Por mim já jogava tudo de uma vez, mas ao mesmo tempo acho que aos bocados fica interessante também.

Que bom! Ainda vai ter outro capítulo tratando do assunto, mas demora a vir, acho. Espere e verás. ;)

Beijoooo