quinta-feira, 21 de outubro de 2010

dezessete

IMPREVISTO


Aconteceu. Tom quis me levar para conhecer a família em Minas, e eu não pude concordar, simplesmente porque não me sentia à vontade com a ideia. Aí ele me olhou com tanta decepção que não aguentei e pedi para terminar. Ele ficou, eu saí do apartamento e andei duas quadras até o bar do Dino, onde a banda tocava. Sentei no canto preferido de Tom e chorei. Pedi uma garrafa de vodca e mandei colocar na conta.

Meia garrafa depois, um homem de jeito desleixado, os cabelos caindo nos olhos, sentou na minha frente:
- Você tem um rosto interessante e canta direito, só precisa de uma polida.
- O quê?
Ele explicou que tinha me visto algumas vezes, se apresentou. Valverde. Era dono de uma gravadora pequena e adiantou que gostaria de conversar.
- Se você tiver interesse podemos ver alguma coisa.
- É mesmo?

Duvidei de tudo que me contou, ouvi por ouvir. Valverde me ofereceu outra bebida. Hã? Olhei ao redor, não havia nada demais, então peguei o copo e molhei de leve os lábios. Ele me fez perguntas, tantas que me senti zonza e bebi mais alguns goles, e achei normal ele se aproximar e apertar meus ombros.
- Você cheira bem - cheirou meus cabelos.
- Que é que tem? Você tem cada uma!
- Você não me conhece.
- Nem quero.
- Acho que você já bebeu sua cota por hoje. Eu te levo.

Valverde - se é que esse era mesmo seu nome - me levou, mas para um quarto mal-iluminado que não era o meu.
- O que você quer? Quer me comer? Se aproveitar de mim?
- Queria ouvir você cantar, mas parece que hoje vai ser difícil.
- Yesss, baby. Hoje estamos fechados para manutenção!
- Para quieta, menina.
- Se você quiser, pode vir. Eu não tenho mais ninguém mesmo.
- Eu não quero você bêbada.
- Você me quer! Não me quer? Diz que me quer, vai...

Para minha decepção ele jogou um lençol sobre meu corpo, se jogou no sofá e ficou me olhando. Apaguei com seus olhos sobre mim e quando acordei ele continuava na mesma posição, me observando atentamente.
- Fica comigo hoje?

Passamos o dia juntos. Valverde me levou para conhecer seu escritório. Ele era atencioso sem parecer de fato interessado. Homem estranho. Andei pela sala pequena, cantei, ri das fotos antigas que me mostrou. Tomamos café olhando a cidade do alto.
- É muito bonito aqui. Eu gosto.
- Pode vir sempre que tiver vontade.
- O que você quer de mim? De verdade.
- Que você cante.
- Só?
- ...
- Não entendo você. Você me leva do bar prum quarto de hotel, depois fica a noite inteira me espiando, me traz pro seu trabalho. Eu não entendo.
- Eu sou casado.
- E daí? Não estou falando disso. Você não quer me beijar agora?
- Quero, mas não devo.
- O que te impede?
- Você ia me destruir.
- Eu não disse? Você tem cada uma...
Pausa. Por um longo tempo. Olhamos para a frente, na mesma direção. O silêncio poderia significar muitas coisas, para mim o fim daquele encontro.
- A gente se vê por aí - me virei para ir embora.

Valverde me segurou.
- Eu não posso ficar sem seu cheiro.
Nosso hálito de café preto era o mesmo. Quente, amargo. Senti as pernas pesadas, o estômago ardendo, quase caí. Ele me colocou contra a parede. Me cheirou, me beijou inteira. E eu ali, agarrada às vezes à parede, às vezes ao corpo dele, instável, querendo, não querendo, vibrando com cada toque, meu sexo se abrindo para ele sem que eu fizesse qualquer esforço. Me vi sem roupa, enlaçando a cintura dele pelas pernas, agarrando-o por dentro, cada vez mais para dentro de mim, na confusão de sensações, fluidos, no abandono do corpo. Eu quis cantar uma música para que ele lembrasse de mim para sempre, mas gozei. Apenas.




4 comentários:

Luna Sanchez disse...

Acho que o coitado aguentou até enquanto pôde, né?

Sabe que fico imaginando a Nina velhinha, avó de adolescentes, contando suas estripulias para as netas? Gosto dessa cena, talvez porque gente que vive de verdade (ainda que seja personagem) me faz pensar em longevidade.

Eu quero o livro, Li. Quero ir ao lançamento, enfrentar a fila quilométrica com prazer e pedir autógrafo! \o/

Beijos, querida. Ótimo fds!

ℓυηα

Eder Asa disse...

"gozei. Apenas"? É muita modéstia...

Alline disse...

Luna:
É o tal do não querer querendo. Se não fosse ela ele teria guentado firme. Essa Nina... tsc, tsc, tsc

Pensei nela mais velha, menos cabeça de vento. Poderia se tornar uma dominatrix! Magina. rsrs

As netas iriam considerar a vó Nina muito louca. E quem seria o avô? Tom, Bernardo, Gabriel, João, Valverde ou Lúcio? E ainda há outros candidatos, que vão surgir mais tarde...

Se conseguir editora, pode deixar que te convido pro lançamento, viu? Aqui foste minha maior incentivadora, e não vou esquecer disso nunca. Nunquinha.

Beijãozão e bom fim de semana!

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Eder:
Ah, mas Valverde queria ouvi-la cantar, e ela queria dar esse presente a ele.

Luna Sanchez disse...

Sou fã, tu sabe.

Afagos, Li, e um fds lindão pra ti! ;)

ℓυηα