terça-feira, 11 de maio de 2010

trinta e um

QUERO MEU FRANGO COM KETCHUP E MAIONESE


Eu li duas vezes a mensagem que Bernardo mandou pelo celular pedindo desculpas por não ter ido ao show, em seguida apaguei as duas linhas na frente de Karen para mostrar que eu não estava me importando. Ela não acreditou. Tem outros homens interessantes por aí. Provoquei-a perguntando quando ia me apresentar um. Ela pegou o telefone na hora e chamou um tal Álvaro para jantar. Com esse nome devia ser um tipo normal, de camisa de gola pólo abotoada. Antes que eu dissesse mais alguma coisa, ela tirou um vestido do cabide e me entregou. Coloquei-o na frente, era sexy! Não esqueça de se depilar direito. Como se eu não soubesse o que fazer. OK, às vezes eu não sabia... E mais calcinha mínima, salto e maquiagem, para impressionar esse Álvaro que eu nem sabia quem era ou se valeria a pena.

Ele chegou pontualmente às 21 horas. Pelo jeito de me cumprimentar – um aperto de mão que quase me achatou os dedos – senti como seria a noite. Álvaro escolheu o restaurante, o vinho, o prato estrangeiro cujo nome eu não saberia pronunciar e que detestei. Tomara que ele pague a conta também. Ele era tão perfeito que incomodava. Educado, bonito, provavelmente rico e articulado em excesso. Como Karen tem um amigo assim? Pelo tom da conversa concluí que ele era advogado dela, mas isso não me animou, pelo contrário. Procurei ignorá-lo a noite toda para evitar a tentação de ser irônica. As intenções de Karen haviam sido as melhores, e só por isso eu não ia estragar tudo.

Fui ao banheiro quatro vezes para me desvencilhar do grupo e principalmente da presença e das frases inteligentes dele. Retoquei o batom sem pressa para fumar em seguida, fiquei algum tempo sentada no vaso contando azulejos enquanto fazia xixi. Até a última gota pingar no vaso.

Na última vez que voltei à mesa, Álvaro havia acabado de entregar o cartão de crédito ao garçom. Até que enfim! Ele se ofereceu para me levar até em casa sem esconder o olhar de lobo mau. Ai, não!!! Era tudo o que eu não queria, mas Karen implorava com os olhos para que eu desse uma chance a ele. Tá, vou tentar, sua chata!

Entrei no carro pensando em comer o resto do frango assado do almoço com ketchup e maionese. Meu estômago sentia falta de comida de verdade. Comida em quantidade e sem arranjos no prato. Álvaro pediu permissão para acender um cigarro. Enfim algo em comum! Não tive vergonha de pedir uma tragada, ele me passou o cigarro. Perguntou:

- Você quer ir pra minha casa ou prefere um motel?

A objetividade dele me deixou muda. Onde estava o Álvaro elegante que havia sentado ao meu lado há pouco no restaurante? O pior foi que soou como se perguntasse se eu preferia sorvete ou bolo de sobremesa.

- Você acha que eu quero? – joguei um pouco de fumaça no ar.

Ele calou. Quem disse que eu estava a fim de... justamente com ele? Ah, ter aceitado comer de graça com ele significa que estou dando sopa? Terminei o cigarro.

Bernardo ao celular interrompeu meus pensamentos. Fui obrigada a ser direta. Meio rude. Oi, tô na rua. Ele que pensasse o que quisesse, eu não ia contar onde e com quem estava. Não posso falar agora, te ligo amanhã. E desliguei na cara dele. Resolvi:

- Vamos pra sua casa.

Antes Álvaro passou na farmácia e na volta me mostrou um pacote de camisinhas. Um pacote com TRÊS unidades, tamanho GRANDE.

- Você se importa?

- Não, não, claro que não.

Um homem prevenido. Uma mulher quase desesperada.

- Você precisa de algo mais? Lubrificante, algum acessório...?

- Não, tá tudo bem – menti. Em vez de ficar mais tranquila com o cuidado dele, não sei por que comecei a querer ir para casa me entupir de frango. Não sei por que... Sei muito bem.

- Você faz sexo anal?

- O quê? – engasguei.

A garagem se abriu e eu já sabia que não era para acontecer.

O apartamento era a cara dele – austero, impecável. Mesmo na penumbra, duvidei que houvesse pó nos móveis ou algum objeto fora de lugar. Gostaria de ter reparado mais na decoração, mas ele estendeu o braço para que eu me dirigisse ao quarto no fim do imenso corredor.

- Vamos tomar um banho antes?

Minhas suspeitas aumentavam.

- Tudo bem se eu tomar sozinha? – tentei.

- Não tem problema. Tem toalha sobre a pia, e roupão também. Dentro do armarinho você vai encontrar uma escova de dentes. Está na embalagem ainda.

Ele tinha um kit completo para as visitas e isso nem me surpreendeu. O sabonete era perfumado e convidativo, mas eu não pretendia tirá-lo da embalagem. Abri o chuveiro, respinguei água no cabelo e no rosto, tirei a sandália e coloquei o roupão por cima do vestido. Tomara que ele engula a farsa. Saí do banheiro minutos depois, convencida de que estava fazendo o que qualquer mulher em sã consciência faria no meu lugar. Eu não vou dar nada pra esse doido aí.

Assim que Álvaro entrou no banho, tirei o roupão sem alarde, peguei minha bolsa em cima da mesa e saí na ponta dos pés até chegar na porta. Só calcei as sandálias ao sair do elevador. Percebi que o porteiro me via pela câmera, de bunda para cima, ajeitando as tiras. Por isso o homem me olhou com desconfiança quando passei e perguntou se estava tudo bem. Deu vontade de contar sobre as esquisitices do morador do décimo andar, mas reprimi o impulso. Eu estava indo atrás do meu frango com ketchup e maionese e ninguém ia me impedir. Nem um lunático chamado Álvaro.

12 comentários:

(6) capreta disse...

Nessas horas corro até pra um frango sem ketchup e maionese! HAHAHAHA
Cheguei a pensar que o Álvaro fosse gay e curtia inversão.

Beijos

Dai disse...

Que maravilha de texto, história e jogo de cintura!

Eu achei o Álvaro uma figuraça, mas se estava lá mesmo, o cara cheiroso, atencioso, acho que se ele é tão metódico que talvez faria até a lição direitinho...rs

Muito bom, adorei ler!

=**

Alline disse...

Ca:
O negócio é correr, né? Pra bem longe de qualquer Álvaro.
Ah, ele é só um chato, desses que se encontra pelas esquinas da vida.

Beeeeijo

Dai:
Acho que falei da outra vez pra Luna - é de um livro não publicado.
Esse Álvaro caiu de paraquedas na história, não era pra acontecer.
Será que faria? Imaginei um sexo burocrático... rsrs

Opa, brigada pela dica. Viste que a fonte de repente aumentou de tamanho? hehehe
É bom pra mim, que sou meio ceguinha. rs
Beijão!!

vida cotidiana disse...

Adorei, eu tô com ela medo de Alvaros assim, tudo muito certo, meio esquisito.
Excelente texto.

vida cotidiana disse...

Adorei, eu tô com ela medo de Alvaros assim, tudo muito certo, meio esquisito.
Excelente texto.

Ana B. disse...

gostei demaisss do final
x))
saber entrar em situações constrangedoras é um dom, e saber sair delas uma dádiva
luna sortuda!

=***

Leci Irene disse...

Viajando por aí, cheguei aqui! Minha pergunta é: vc já publicou algum livro? Onde encontro?
Beleza! me apaixonei... voltarei
Beijos
Leci

Mariah disse...

1. eu conheço um Alvaro fantástico!

2.sempre acabo de arrependendo do que não vivi!

3. pelo menos o frango tava bom?

Luna Sanchez disse...

Ahahahahaha

E eu cheguei a pensar que haveria algo sobre uma noite tórrida, com direito a algemas, mordaça, velas, vendas e sadomasoquismo...tsc-tsc-tsc

Frango com ketchup e maionese, né? =)

Amei, Alline...amei!

Beijo, beijo.

ℓυηα

Alline disse...

Ana:
Pessoas assim me deixam com uma pulga atrás da orelha. Nina, a personagem, também estranhou. Além disso, ela já tinha paixão por outro cara, o Bernardo, que não foi ver seu show. Que coisa...
Beeeeeijo!

Ana B.:
Nina saiu o mais rápido que pôde. De sandálias na mão e tudo. E com fome pelo frango que ficou me casa...
hehehe
Luna sortuda?
Beeeeeijo!

Leci:
Ainda não. ;)
Tentei este - "Nina" -, mas ainda não deu em nada.
Brigadão, Leci! Quando eu conseguir uma brecha pra entrar nesse mundo te aviso, pode deixar.
Beijos

Mariah:
1. Eu ainda não, ou pelo menos não com todas aquelas características reunidas.

2. É, eu também.

3. Isso eu não saberia dizer, porque não sou eu ali, é uma história que eu conto em primeira pessoa. E eu nem sou chegada em frango. Nem em cigarro - ainda bem.

Luna:
Quando eu colocar uma parte tórrida terei que fazer muuitos cortes. Vou ver se acho uma agora, tá?
Besitos ;)

Luna Sanchez disse...

Opa! =)

Beeeeeeijos!

ℓυηα

Alline disse...

Luna, a 33 foi mais quente, né? ;)
beijins