quarta-feira, 5 de maio de 2010

A Cura

Não era bem o que ele queria dizer, mas saiu, baixinho, sem querer. Era a última semana de aula e não podia perder aquela chance. Quase um ano engasgado pelos cantos do colégio, fingindo não vê-la, seguindo-a com olhar onde quer que fosse. Escrevia longas cartas que nunca seriam enviadas. Guardava-as numa caixa de sapato debaixo da cama, a salvo da curiosidade alheia. No colégio rabiscava sem parar o nome dela na última página do caderno enquanto todos achavam que estava fazendo a lição.

E apesar de faltar tão pouco para o fim das aulas ele continuava encolhido no corredor ao vê-la chegar, protegido do sofrimento e da humilhação de ser recusado. O coração descompassado, as mãos trêmulas, enfiadas no bolso, a boca paralisada, dormente, inerte, covarde. Tinha tanto medo que nem ousava levantar os olhos. Era só sentir o perfume doce no ar para fixar o olhar no cadarço do tênis.

Tinha consciência de que se não tentasse nada logo a perderia para sempre. Para um cara mais velho que já soubesse dirigir. Para o novo colégio em uma cidade bem longe que nunca conheceria. Para toda a vida. E nem pensando dessa forma ganhava coragem para encará-la.

Até que aconteceu. Foi depois da aula de matemática, na quinta-feira, e ele não estava preparado. Rabiscava a última página do caderno quando ela se aproximou. Sorriu sem mostrar os dentes, um sorriso de compreensão. E ele começou a suar ao vê-la tão perto. Queria beijá-la como nos filmes, pela primeira vez. O estômago apertava, tudo o que havia dentro dele chacoalhava e se contorcia. Chegou a pensar que fosse vomitar na frente dela.

As outras meninas olhavam da porta, cochichavam e riam. Ele levantou um pouco o rosto e então ela comprimiu rapidamente seu lábio contra o dele, deixando-o sem reação. Não entendia o porquê daquilo e não ligava mais para as meninas que riam alto. Elas que rissem. Ele estava em êxtase, concentrado na doçura dos lábios dela.

Havia sido um instante mágico, ele disse "Não vai, eu gosto de você", mas logo ela não estava mais na sala para ouvi-lo. Não tinha fotografias para guardar, só um beijo. E ele nunca mais a viu, não soube o que foi feito dela, se casou, se teve filhos. O nome dela lembrava bem, era Camila, e ele nunca mais gaguejou.

5 comentários:

Luna Sanchez disse...

Como no título do blog da Jou, "atitude : substantivo feminino" !

^^

Gostei tanto disso...

Beijoconas!

ℓυηα

Marco H. Strauss disse...

Bom! Gostei. Quantos filmes não revelam a mesma história? Quantas pessoas não devem passar pela mesma coisa, ou ao menos parecido? O medo nessas horas é algo inevitável e que, por mim, não deveria existir. Perdeu tempo cabeção. hahahahaha Sabe-se lá como poderia passar daquele beijo, apenas se ele criasse a coragem. Fato. Bom texto. =D

Ana B. disse...

Só pq ele queria, ela não deu o telefone...

uahahaha

mas um beijinho já é grande coisa pra um carinha tímido e atrapalhado!

=)

Alline disse...

Luna:
Ah, eu sou assim. Quebrando a cara ou não, eu fui atrás. Mesmo tímida, mesmo me borrando de medo.
Beijossss!

Marco:
Já ouvi, certa vez, que eu deveria ter medo de ter medo. Clichês à parte, o medo vale pra gente não se arriscar demais. Quando paralisa é que ruim. No caso era um guri de 12 anos, não dava pra esperar muito.

Ana:
Um beijo pra guardar de recordação é bastante coisa prum tímido. Imagina o que não ia render na cabeça daquele menino... ;)

Ricardo Rayol disse...

Esses instantes na vida são de matar.