quinta-feira, 2 de setembro de 2010

dez

COM UM PÉ NA TELONA

Ouvi Karen falando sobre escolher uma roupa para aquela noite. Vai sair? Me interessei, estava cansada de ficar em casa dedilhando o violão sem conseguir terminar uma música. Posso ir com você?

A princípio Karen resistiu, afinal eu mal conhecia Susi. Susi e Karen eram sócias na loja e amigas desde o colégio, e eu sempre desconfiei que eram amantes também, mas eu não tinha nada a ver com isso. Então Karen contou que Susi estava indo morar com o namorado e para comemorar faria uma reunião para os amigos mais íntimos. Entendo. Se não sou íntima não devo aparecer, certo? Karen frisou que eu seria a única estranha e poderia me entediar com os papos. Mas eu queria tanto...

Ela tinha razão. Não era nada parecido com uma festa, era um encontro de poucas pessoas – contei 12 ao todo – que comiam, fumavam, bebiam e falavam ao mesmo tempo e quase não prestavam atenção em mim, a prima de Karen no pufe do canto com uma cerveja na mão.

Na tentativa de me enturmar, Karen me apresentou a um cenógrafo que tocava baixo e tinha tudo para ser a salvação da minha noite, mas infelizmente não foi. Depois de cinco cervejas a conversa não evoluiu e desisti. Vitinho não parecia ser um cara ruim, só não tinha nada a ver comigo e ainda por cima falava mal do U2. Para não me irritar, pedi licença e menti que tinha que fazer uma ligação urgente e apaguei Vitinho da mente.

Mas o melhor aconteceu antes do jantar. Eu estava apertada e deixei Karen falando sozinha para procurar o banheiro. Desculpa! O social estava ocupado e alguém me disse que havia outro no quarto do casal. Não perguntei se podia, não daria tempo.
Assim eu vou me mijar, meu Deus. Depois eu aviso que dei descarga direitinho.

Desabotoei a calça ainda no escuro e sentei com tudo sem ver que a tampa estava baixada, e senti o contato gelado com o plástico.
Porra! Tampa erguida, repeti o gesto e relaxei enquanto botava para fora o excesso de cerveja. Ai, delícia! Quando me estiquei toda para alcançar o papel higiênico, a luz se acendeu. Mas como se não fui eu? O cara me olhava atônito da porta. Eu ali de calcinha arriada. Susto, dos dois. Instintivamente fechei as pernas de olhos esbugalhados, sem ação. Caralho! OK, ele não tinha culpa de eu ter entrado primeiro e não trancado a porta. Nem por isso a situação era menos constrangedora.

- Que é isso?

- A porta tava aberta...

- Aberta, não. Eu só esqueci de trancar. Dá pra você se virar, por favor?

O ridículo só não foi maior graças à educação do moço, que ficou de costas sem dar um pio. Peguei um bom pedaço de papel higiênico sem descuidar dele, me enxuguei o mais rápido possível e coloquei a calcinha num pulo. Eu não sofria desses pudores de ficar pelada na frente de um homem, mas fazer xixi era muita intimidade para dividir com alguém que eu nunca tinha visto antes.

- Pode deixar que eu dou descarga depois.

Nem respondi. Fui procurar Karen para aliviar a raiva.

- O que é que houve?

- Nada. Acho que bebi demais.

Vi o “nada” saindo de banheiro e acenando para mim. Tomara que tenha lavado a mão! Karen não perdeu a chance:

- Você conheceu o Felipe?

- Quem?!

- Felipe, aquele ali que acabou de abanar pra você.

- Não, deve ter sido pra você. Você não conhece ele?

- É irmão do namorado da Susi. Inteligente, bom papo, sossegado, tudo de bom. Dizem que gosta de uma sacanagem... Se me convidasse eu topava na hora!

- Que sacanagem? - me interessei.

- Ménage, grupal... e olhando você nem imagina.

Então esse era o Felipe? Não acreditei quando ela chamou o cara.

- Karen, eu vou embora!

Ele vinha vindo...

- Fica quieta. Ele dirige filmes e está com um projeto novo. De repente pode te arrumar trabalho.

Ele já estava ali.

- Felipe, esta é minha prima, Nina. Ela é de Floripa. A coitada está batalhando, mas não consegue nada...

Coitada, eu? Que é isso? Desse jeito parecia que eu tinha implorado para ela me apresentar ao cara. E até uns minutos atrás, no banheiro, eu nem tinha ideia de quem ele era!

- Oi... – esperei que ele desse uma boa desculpa e fosse embora.

- Eu dei descarga – avisou.

Karen não entendeu:

- O quê?

- É uma brincadeira nossa. Então a Nina é atriz?

- Não exatamente, mas ela canta! Vou deixar vocês sozinhos para conversarem melhor.

Agradeci a ela baixinho, ainda odiando ter que começar uma conversa com o tal Felipe. Mas se fosse pensar com clareza não deveria ser hostil, pois ele poderia ser útil. Eu precisava de trabalho e de dinheiro, e ele tinha como me ajudar. Ainda bem que não era de se jogar fora.

- A Karen não tem jeito.

- Vocês são primas mesmo?

- Claro. Por quê?

- Achei que você era namorada dela.

- ...

Ele não falou mais no que aconteceu no banheiro, senti que não era um abusado qualquer a fim de tirar partido do incidente. E é claro que quis me levar no fim da noite. Enquanto eu fazia o papel de boa ouvinte, ele parou o carro no lugar que indiquei, tirou o cinto e se virou para mim.
Agora ele vai tentar alguma coisa? Também me virei, olhando-o nos olhos. Porra, tô até suando.

- Queria que você viesse me ver no escritório. Posso arrumar um papel pra você... Se você tiver interesse...

- Quero. Quero, sim!

Procurei um abraço de agradecimento para ver a reação dele. E dei um jeito, pela proximidade, de o abraço virar um beijo sem precisar forçar nada. Sabe quando não há outra saída senão o encontro dos lábios? E eu quase abri o zíper da calça dele, foi automático. Era a curiosidade, a vontade. E ele reagiu me puxando inteira para ele, de maneira que não pude escapar. Estava pressionada contra seu corpo, presa nos braços do estranho que parecia prometer loucuras.
Grito ou tento correr?

Saí do carro sem encostar um dedo no pau dele, porque se ficasse seria capaz de amolecer, me livrar da calcinha, sentar nas coxas dele e deixar rolar. Aí talvez ele nem me chamasse mais para o filme.
Boa menina! Mas numa próxima eu já não poderia prometer nada.



10 comentários:

A Mina do cara! disse...

gostei!!!
depois conta a próxima...

Eder Asa disse...

HAHAHA'
Sou fã demais da Nina rsrs
Mas esse Felipe é bem folgado '-'
Acho que já estou com ciúme rsrs

Gostei demais, Aline!

Milene disse...

hehehehe, a Nina sempre se dá bem!!
Beijo Aline, bom final de semana!

Eraldo Paulino disse...

Ai ai...

Cada semana melhor...

EU QUERO ESSE LIIIIIIIVRO!!!

Bjs!

Luna Sanchez disse...

Legal que os similares acabam se encontrando, né, Li? Acho que é como a água e os "vasos comunicantes"...rs

Coisas da Nina sempre deliciosas, vontade de ler mais e mais e mais.

Beijo, gatona! =)

ℓυηα

Alline disse...

A Mina do cara!:
Achei meio light demais, mas tudo pode mudar. ;)

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Eder:
Ahhh, mas ele podia já ter atacado no banheiro e não atacou...

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Milene:
Mas na próxima não será bem assim. Acho que tem confusão. rsrs

Beeeijo, bom feriado!!! =D

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Eraldo:
Já estás tendo. ;)

Beijuuu!

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Luna:
Agora eu pensei que poderia ter desenvolvido mais. Sabes, né? Eu meio que tô reescrevendo tudo um dia antes, na corrida.

Beijoss, Lindona!
E um feliz feriado pra ti =DD

Marco Henrique Strauss disse...

Continua muito bom. Sempre acompanhando teus textos. Parabéns.

Luna Sanchez disse...

Pois eu gostei e não foi pouco! Tu arrasa sempre, gata, sou fã, tu sabe disso. ;)

Beijo e um feriado ótimo pra ti, também.

ℓυηα

Alline disse...

Marco:
Esta semana mais leve, né?
Pra dar tempo de respirar. ;)

Valeu!

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Luna:
Então tá bom. Como diz o povo aqui - se tu diz...
rsrs

Beijobeijobeijo!!!
Tá quase no dia do grito do Ipiranga, quando a gente vai relaxar. Eba!

Minha Vida disse...

Adorei. Mas, acho que ela deveria ter agarrado ele. rsrsrrss
Brincadeirinha...
bj