quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

trinta e dois

A FALTA QUE ELE ME FAZ


Quando escreveu quilômetros de poesia em meu corpo entendi que de alguma forma Caio me amava. Depois foram as mãos que partiram em busca das fendas mais obscuras, mais distantes, foi a boca que me disse obscenidades misturadas com palavras de amor e me convenceu de que devia deixá-lo tomar conta do meu prazer sem restrições. Ele veio, eu fui, nos encontramos no caminho. Rolamos um sobre o outro, lutamos sem querer lutar, cantamos, rimos, nos enrolamos e nos fundimos, tanto que os dias se passaram e achei que Caio havia me preenchido de uma maneira diferente da que eu esperava. Não, não... não pode ser. Foi num impulso que corri para verificar a cartela de pílulas. Tinha esquecido de tomar algumas no mês. Pode ser verdade! Quando me senti enjoada ao olhar batatinhas na travessa sem conseguir comer nenhuma, considerei mais seriamente a hipótese de Caio ter me feito uma surpresa antes de viajar.

Nessa hora só não me passou pela cabeça que tinha dezenove anos e queria tudo da vida, menos me prender.

Se existia a possibilidade de estar grávida, devia parar com aquela vida desregrada. Era lógico, eu precisava largar o cigarro em primeiro lugar. Joguei o último maço na privada e logo me arrependi. Tentei não pensar, mas ficava faltando algo, eu sentia que o tempo se arrastava. Olhei para as paredes, para o cinzeiro. Um banho seria bom para acalmar a tensão. Mas eu já tomei um! É muita precipitação ligar pro Caio? Roí as unhas até quase me machucar para não pegar o telefone e dizer o que não devia. Tirei a camiseta e deslizei a mão sobre a barriga. E se for um bebê aqui? Até pensei que poderia não ser nada, mas desisti e andei nua pela casa.

Eu teria acendido um cigarro, se tivesse um à mão. Peguei um lenço de Karen, amarrei no pescoço, calcei as sandálias de tiras e me espalhei na cama dela. Fiz pose como se estivesse com um cigarro na mão. Quem me dera! Dieter teria vontade de me desenhar? De quatro, fingi que era penetrada movimentando os quadris no ritmo de um orgasmo. João, sim, gostaria de ver essa encenação e de participar dela. E Mateus amaria estar por trás das cortinas olhando tudo? Bernardo me levaria dali se eu demonstrasse desejo? Começava a ficar entediada de verdade, queria fumar.

Fui mexer nas gavetas de Karen para ver se me distraia. Sabia que ela guardava um vibrador dentro da meia soquete azul-bebê na terceira gaveta e não demorei a chegar nele. Era de vidro transparente, pontiagudo como uma lança, uma peça que me lembrava os bibelôs de cristal que tia Rute guardava na estante.

Sentei na beira da cama, olhando-o por algum tempo bem de perto. Eu tinha um pau de vidro na mão. Pau anônimo, de ninguém, sem sangue correndo nem veia. Girei a peça entre os dedos. Era frio, mas tão bonito e brilhante que coloquei na boca. Lambi. Você quer aqui ou lá? Não vai testar?

Senti urgência de aproximar a ponta de meu sexo. Encostei nos pelos até sentir uma descarga em toda a região, que sensação inesquecível o impacto do vidro gelado no calor da pele. Empurrei mais um pouco, e mais, até a metade estar dentro de mim. Era um estremecimento que se espalhava pela virilha e me fazia voraz e impaciente. Eu estava largada na cama com o pau de vidro me penetrando e um dia poderia contar isso aos meus netos. Não era o máximo? Fechei um pouco as pernas, o suficiente para ele continuar deslizando. Ele sumiu entre os pelos, engolido, abduzido, seduzido por minhas entranhas. Só escorregou e saiu um pouco de mim quando gozei. Mas nunca, nunca mais me separei totalmente dele.



10 comentários:

El Brujo disse...

Que as fendas tenham sido exploradas como o núcleo do submundo!

Janderson disse...

Ótimo texto!
As palavras fluem tão naturalmente e é tão bom ler que gostaria de comprar o livro.

A Mina do cara! disse...

te pergunto e nunca sou respondido: quando vai pro papel em forma de livro????

beijos

Alline disse...

El Brujo:
Pelo jeito sim, porque a moça deve até querer mais...

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Janderson:
Tá, vou fazer campanha dele de novo. Mas primeiro deixa eu reescrever. Aquela primeira versão ficou cafona se comparada a esta. Né não?

Beeeeeijo meu que é teu =P

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O Cara da Mina:
Não respondi? Acho que sim... eu tinha toda a versão em papel, e mandei para as poucas editoras que recebem originais de autores novos. Elas não deram sinal de vida e eu quis compartilhar a história aqui, numa versão nova e exclusiva. Quando fechá-la, talvez até com outro final, tento outra vez. Quem sabe?

Beeeijo

Rolando disse...

Oi menina. Estive aqui de novo. Legal. Apareça po rlá. Tenha um otimo fds. Bjus.

Marco Henrique Strauss disse...

Nina aprendendo a "auto-suficiência"? E assim se fez um teatro com poucos recursos. Hahahahahaha. Esse foi mais solita, entretanto ainda bom.

Parabéns.

Os brejos ao redor de minha alma agreste... disse...

muito interessante minha querida meNina.
E o contraste da autosuficiência com o artificial,incrível!
bela imagem com palavras sem a vergonha de serem felizes!
parabéns Allinezinha querida!
e obg por suas palavras lá nos Brejos que sempre me deixam mto contente!
mas agora estou com uma crise terrivel, sem inspiração mas indignada com tanta coisa q tem acontecido: músicas sem graça nem conteúdo, sonoridade péssima, os cantores desaredam e as letras só sabem evocar grosserias... e os programas de TV então? ai credo! melhor nem comentar.
Mas aí é tão bom vir aki e te ler, encontrar um tipo humano diferente, desnudo, que se deixa despir e enxergar...
abraços carinhosos
Rita de Cássia

Eraldo Paulino disse...

Isso que fazes já é maldade!

QUE QUERO ESSE LIVROOOOOOOOOOO!!!

bjs!

Eder Asa disse...

Confesso que as vezes me perco, pela leitura ser somente semanal, aí começo a ler tudo novamente... Como se fosse um sacrifício... AHHAA'

Perfeito, como sempre!

El Brujo disse...

Tá melhor, cuidando do machucado... se cuidar de vestido de cetim pérola, sara logo!