sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

QUASE LÁ

Não fiz a gravação dos votos de ano-novo, como sempre prometo. A gente encontra as pessoas na rua e acaba sempre repetindo a mesma coisa, não é? Também não vou usar branco hoje, só pra contrariar. E acho que amanhã a gente vai acordar e não vai ter mágica que transforme tudo em novidade. Mas vou tentar fazer minha parte. Sem grandes planos, sem mistérios. Só consertar os erros de percurso, olhar pra frente, seguir, abraçar o mundo e ser feliz. Tá mais que bom. E o que eu quero pra mim, quero pra todos, viu? Saúde, vontade de ver graça na vida, nas pessoas, fé e pé na tábua. Lá vem outro. Pode pegar, o ano-novo também é seu.

Tim-tim!!!


quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

vinte e sete

VOYEUR

Chico só me beijou, era tudo que eu podia contar. E a história foi encerrada ali depois que saímos da água atormentados e silenciosos e nos vestimos. Cada um dormiu em sua cama e não se falou mais no assunto. Na rodoviária tive vontade de beijá-lo como antes, ele me segurou e se conteve, porque eu vi em seus olhos o mesmo desejo que pairou nos olhos do outro que também era ele.

Dissemos quase nada e cada um foi para seu lado. Ele voltou para a padaria e eu para São Paulo, onde encontrei Karen tão excitada com o novo namorado que desconsiderei totalmente a possibilidade de confessar os pecados do fim de semana. Ela falou tanto dele que pensei que nem precisaria mais conhecê-lo. Ele era chef de um restaurante da família, era sexy e caseiro, se vestia bem, falava italiano e ia à Europa pelo menos uma vez por ano, também era ótimo na cama... enfim, era perfeito. Ah, ela quase se esqueceu de contar que tinha um irmão gêmeo que eu ia gostar de conhecer.

- Tem uma boquinha... humm... quase igual à do Fred.
- Frederico? Esse é o teu?
- É. A gente já se conhecia há um bom tempo, mas ele estava ocupado, entende? Quase noivo! Agora que deu brecha ele me ligou e pronto.
- Espera aí, você lembra que desastre que foi aquele encontro com teu amigo advogado?
- Esse é diferente, Nina. Você vai ver. Ele tem um bar ali na...
- Tá. E quando vai ser isso? Quando vou conhecer essa peça rara?

Karen que não era de perder tempo conseguiu armar para a noite seguinte. Fez questão de escolher meu vestido, me pintou e me carregou até o apartamento que os irmãos dividiam. Eu estava curiosa, mas queria mais era me livrar dos pensamentos em Chico.

O novo namorado dela nos recebeu com um sorriso aberto. Aparentemente era tudo aquilo que ela tinha dito e ainda educado e gentil. Ótimo para Karen. Olhei quando se beijaram, era uma bela visão os dois juntos. Ele sutil, mas interessado. Ela voraz, oferecendo a língua. Ele segurando-a pela cintura como se fosse só sua. Ela correspondendo com olhares lânguidos. Se não estivesse ali eles já teriam arrancado a roupa. Por que eu vim mesmo? Ah, o irmão.

O irmão não estava, ia se atrasar. Ponto pra mim.
- Então acho melhor eu ir embora, né?
Tentando escapar de mais uma situação embaraçosa.
- Não, não faz isso. Ele ligou avisando que vai resolver uns problemas com fornecedores no bar e vem pra casa em seguida.
- Então tá.

Ansiosa, perguntei se podia fumar na varanda. De lá fiquei observando os dois. Não sei se ele tinha sido apenas educado ao justificar a ausência do outro, mas era claro que eles gostariam de ficar sozinhos. Karen não se importaria se eu a visse nua sobre ele, aposto que faria de tudo para que isso acontecesse. Via como ela o cercava com abraços e olhares, como o seduzia com as pernas cruzadas e o riso fácil. Mas ele resistia, ainda olhava para a varanda, para mim.

Eu tentava me esconder na parte mais escura para que ele se esquecesse da minha presença e aproveitasse o momento. Vai, Karen, faz alguma coisa!

Ela era uma bela mulher, eu invejava sua segurança e feminilidade diante de um homem. Com Fred não seria diferente. Talvez ele não quisesse uma terceira pessoa presente, mas ela daria um jeito. Ela deu um jeito. Usando o corpo para pressioná-lo contra o sofá, colocou o joelho entre as pernas dele e foi se chegando, beijou-o atrás da orelha, no pescoço, nas bochechas e por fim na boca. Percebi que ele se entregou ao abrir os braços e deixar que ela invadisse seu peito com carícias que o fizeram suspirar. Gostaria de tentar isso, mas com quem? Esse irmão não chegava nunca e a essas alturas nem queria mais que viesse, ia atrapalhar o andamento de cena que acontecia diante de meus olhos.

Eu mesma teria corrido para ajudá-lo a se desvencilhar da camisa, se Karen não tivesse feito isso sozinha e com habilidade de quem é acostumada a tirar a roupa de um homem todas as noites. Mas sem que eu esperasse ela o levou dali e passei apenas a ouvir ruídos abafados vindos do corredor. Claro, fui atrás, não poderia deixar de participar, nem que fosse de longe, como espectadora.

A porta do quarto entreaberta. De propósito? Havia uma fresta por onde eu podia ver Karen de pernas para cima na beira da cama, sendo possuída pelo chef sexy e agora selvagem. Ele estava de costas, então eu só conseguia ver como seus músculos se contraíam no esforço da penetração, e como a cada estocada Karen também jogava o corpo para trás, e ele repetia o movimento. Era uma espécie de dança à qual eu assistia com um prazer que me umedecia e me fazia ter vontade de perder a cabeça.

Apertei meu sexo entre as pernas, passei a mão para sentir que era real também o que se passava comigo. Por que Karen quis que eu visse? Para me excitar? Era um convite velado? Ele concordaria? Eu tive que enfiar a mão dentro da calcinha quando ele a colocou de quatro, fui obrigada a me masturbar escorada no batente da porta enquanto os dois gemiam e balançavam a cama.

- Você sabia que é muito feio espiar os outros?

Susto! A voz que sussurrou em meu ouvido me fez recolher a mão sem olhar para trás. Quase morri de vergonha, mas não tirei os olhos de Karen e Fred. Não tinha como me desviar deles, porque a dança estava quase no fim. Os movimentos eram frenéticos e não dei importância à voz, que se calou. Era ele, o irmão ausente! Não olhei, não o vi. Não era igual ao outro? Ele me enlaçou pela cintura, me trouxe ao encontro de seu peito e presenciou comigo o gozo de seu irmão com minha prima como se fosse a coisa mais normal do mundo.

E depois? Jantamos juntos, os quatro. Civilizadamente.


segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

MAIS UM

Estou na academia perguntando alguma coisa ao instrutor, quando um antigo colega se aproxima. É um médico - gastro - e tem lá seus setenta e tantos. Sorrio, como sempre faço quando ele passa, afinal ele sempre me cumprimenta. Assim sendo, me sobrou o comentário dele para o instrutor:
- Ela não é a mais bonita da academia, mas com certeza é a mais simpática.
Não sabia se ficava lisonjeada pelo "simpática" ou aborrecida pelo "não é a mais bonita". Daí sorri, todos sorriram e por aí ficou.

Passada a surpresa, analiso e concluo que isso é interessante. Talvez até melhor do que "engraçada", como o instrutor já me chamou, ou "figura" e "louca", como outros me elegeram. "Simpática" é legal, vai.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

vinte e seis

REDENÇÃO

Chico estava na padaria com seu Érico, mas deixou café pronto na térmica. Fui atrás dele arrastando o chinelo. Vi que atendia uma senhora no caixa. Esperei ele contar o troco e ser gentil com a mulher. Ele me olhou com culpa antes de vir me abraçar e dizer de novo que sentia muito.

- Faz favor de me dar parabéns, Chico.

- O que tu vai fazer hoje?

- Quero ir à praia. Vamos? Não dá pra ficar trancado aqui num dia como esse.

- Não tem ninguém pra ficar no caixa. Pode ser mais tarde?

- Sem problema. Me empresta o fusca? Dou umas voltas por aí e mais tarde venho pegar você pra gente nadar. Você vai mesmo, né?

- Vou.

E ainda tirou cinquenta reais do caixa para a gasolina. O que deu no Chico hoje? Estava arrependido pelo tapa na cara, era isso, só podia. Quando vim buscá-lo no fim do dia, não estava mais ansiosa, tinha calor, sede, vontade de nadar e chupar picolé. Ele usava uma bermuda velha e estava suado.

- Passou protetor?

Não tinha quase ninguém na praia. Passava das oito. Estendi a toalha para ele e fiquei de pé olhando o mar. O papel dizia que eu tinha nascido perto da meia-noite, então ainda havia tempo.

- Deita aqui comigo.

- Tô ouvindo direito?

- Deixa de besteira, menina. O sol tá se pondo. Deita aqui pra ver.

Eu não queria mais, mas deitei. Chico pegou minha mão e segurou forte. Nos olhamos, olhamos o sol fraco ir descendo no horizonte até se esconder atrás das nuvens. Voltamos a nos encarar.

- Eu quero ser bom pra ti, te proteger. Mas você me assusta com essas ideias malucas.

- Não são malucas, você é que não me entende. Se não fosse essa situação você ia me querer?

- Isso não tem nada a ver.

- Tem, sim. E você não tem coragem de admitir que me quer como eu te quero. Você iria embora comigo prum lugar onde ninguém conhecesse a gente? Eu iria.

- Tá vendo como você é?

- É como eu vejo as coisas, só isso. Quero que você me ame, Chico.

- Eu não posso... não do jeito que tu quer.

- Como você sabe?

- Tu é minha irmã, porra!

- Eu não tô falando só de sexo.

Ele calou. Se achava que eu iria pular sobre sua barriga e implorar estava enganado. Eu me sentia quieta e pensativa. Meus sentimentos por ele continuavam ali, em algum canto de mim, mas aquilo era tão doído e precioso que depois de ontem eu preferia não tocá-lo mais. Que ficasse tudo como estava, eu deitada ao lado de um homem lindo e desejado, mas inalcançável. E inseguro. Já não tinha esperança, só desejava, ainda desejava, o peito fervia, as mãos formigavam, a boca tremia, eu silenciava diante de todas as possibilidades que se desfaziam, como as ondas que batiam na praia a alguns metros de nós.

Eu era a louca, a perdida da família, e não me importava. Fugiria, deixaria tudo para trás se ele estivesse disposto a arriscar. Se. Chico segurava minha mão, só isso. Nunca passaria disso.

- Vou pra água.

- Quer que eu vá?

- Você que sabe.

Tirei a roupa sem olhá-lo e caminhei até a água sem saber se me seguiria. As ondas que me lambiam as pernas foram aos poucos me cobrindo e de repente me vi desaparecendo para ele. Mergulhei nas sombras, fui o mais fundo que consegui e aproveitei esse momento para não pensar, não ser nada, não estar em busca de coisa alguma. Ali me movimentava livremente, abrindo e fechando os braços, as pernas e impulsionando o corpo para a frente sem dificuldade, com toda aquela água ao redor. O mar me possuía, ia e vinha por todas as fendas do meu corpo, me lavava de qualquer pecado que estivesse desejosa de cometer. Estava tão distraída pelas ondulações do mar que não senti Chico se aproximando. Ele era outro, o outro que me queria. Esse estranho que o dominava me puxou debaixo d’água para que eu o percebesse e me envolveu com mãos escorregadias que deslizavam querendo me conhecer de todas as formas, me seguravam e soltavam. Nadei para longe, ele me seguiu e me segurou pela cintura, mas escapei com a ajuda da água. Chico, ou aquele que tomava conta dele, veio e me tomou nos braços. Seus olhos brilhavam de desejo, era só o que eu conseguia vislumbrar na escuridão. E era de uma intensidade que me feria e eu me debati até ele me acalmar com um beijo. Parei de lutar quando os lábios que me chamavam de irmã tentaram roubar o sal da minha pele. Jamais conseguiriam por completo, mas eu deixei que tentasse. Era meu presente de aniversário.

sábado, 18 de dezembro de 2010

SE BEBER, NÃO PEÇA CACHORRO-QUENTE

É o seguinte, explico: eu ganhei uma bendita garrafa de espumante na última sexta-feira. Muito bem-vinda, não vou reclamar. Quem sou eu pra reclamar de um brinde tão delicinha? Então... Hoje namorado estava aqui e resolvemos comer cachorro-quente, nem sei por quê. E eu quis porque quis abrir o espumante primeiro. Namorado fez as honras da casa, e bebi dois ou três goles. Pra quê? Já fiquei outra. Eu? Sim. É que não bebo com frequência, e quando bebo fico alegre, sorridente e muito mais. E foi desse jeito que namorado pediu pra eu ligar pro disque-cachorro. Ai, eu? Lá fui. Pedi o meu sem palha, sem queijo ralado, sem vinagrete, sem maionese, mostarda e ketchup. Pedi praticamente um cachorro magro, né? O do namorado só sem os últimos quatro ingredientes. Tá, mas o moço do outro lado da linha ficou confuso com tantas exceções num mesmo lanche e me pediu pra repetir. Vixe, deu um branco total radiante. Fiquei muda, assim... E comecei a rir sem motivo, namorado riu tanto que saiu da sala. Eu ri mais, com vergonha de rir, mas sem conseguir parar. Se fosse eu a atendente tinha desligado na cara da descarada que ria. Me controlei a tempo para fornecer o endereço correto. Jesus, Maria, José, que esforço pra não rir! O cara pediu por último meu nome, ele também riu! Ainda bem. E falou que não ia esquecer meu nome. Isso é bom ou é ruim? O resultado é que meu cachorro veio com palha. Não foi bem assim que pedi, mas como ia abrir a boca pra dizer alguma coisa? Tudo bem, fica como está. E o jantar foi digno, com espumante voltando pra ficar à mesa, acompanhado do esperado cachorrão. Não é a combinação mais bizarra e maravilhosa de fim de ano?