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domingo, 1 de maio de 2011

Deusa do amor - e da sofreguidão

Afrodite inventou uma mentirinha nada inocente para chegar mais tarde à lanchonete. Tudo para poder assistir ao casamento de Kate e William. Reparou e anotou os detalhes do vestido e correu para a casa da dona Isolda, costureira de mão cheia da rua de cima e tia da Vaninha, sua melhor amiga.
- Se eu trouxer o tecido amanhã, a senhora me faz pra quando?
- Ué, minha filha, tu já arrumou um pretendente?
- Dona Isolda, esse é outro assunto. Primeiro o vestido. Pra quando?

Por aí ainda dizem: cada um com suas prioridades.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

de tanta vontade

Ela olhou para ele da outra ponta do balcão. Não quis sorrir imediatamente, para não demonstrar suas reais intenções. Baixou os olhos, depois tornou a observá-lo. Ele não disfarçava, não parava de olhá-la. Ele a queria também! Ela ajeitou o decote, roçou os lábios em expectativa. E se ele a convidasse para sair dali? E se fosse um depravado? E se quisesse fazer coisas doidas com ela, como seria? O coração bateu tão forte que teve medo de que todos pudessem ouvir. Ele estava vindo, sorria para ela. Ela não queria ter medo, queria aproveitar a vida, e deixar seu coração pular para fora do peito por alguma emoção forte provocada pelo estranho. Abriu seu melhor sorriso, quase abriu os braços para recebê-lo. Ele chegou em seu ouvido:


- Você não é a mãe da Marcinha? Faz tempo que eu tô querendo falar com ela.

Ela não era mãe de Marcinha nenhuma, aliás não era mãe de ninguém. Ela achava que não tinha idade para ser mãe, o sujeito estava precisando de óculos, isso sim! Mas, por via das dúvidas, resolveu marcar uma consulta com o dermatologista no dia seguinte e providenciar umas injeções de botox e de ânimo.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Vizinha é para essas coisas

Marina morava com a tia desde os nove anos na casa de varanda espaçosa e roseiras cercadas de mato que costumava visitar uma vez por ano. O bairro era dos mais tranquilos, para não dizer entediantes, e ela aparentemente convivia bem com as manias de mulher sozinha de Zuleica. Os pais haviam deixado a menina sob os cuidados dela, prometendo que viriam buscá-la quando voltassem de viagem. Passados dez anos ela já não corria para a rua ao ouvir o som diferente de um carro. Não tinha mais esperança.

Aos poucos, não sem alguns tropeços, foi aprendendo a driblar o olhar perscrutador de tia Zuleica, que a seguia por todos os cantos da casa. Tinha a desculpa de inventar sempre uma prova para o dia seguinte e se fechar no quarto dos fundos. A escrivaninha servia para obstruir a passagem e os cadernos empilhados tornavam a mentira mais real.

Gostava de se examinar no que sobrara do espelho atrás da porta. Os vestidos que a tia mandava fazer na costureira do fim da rua iam para o chão, amontoados, esquecidos. Encarava o corpo franzino e imaginava que nunca seria mais bonito ou vistoso. Nenhum menino olhava para ele, a não ser o filho da costureira, que já nem era mais um menino. E ele olhava de um jeito que a fazia sentir aquecida por dentro.

Mas o fato é que tia Zuleica estava envelhecendo, o portão continuava a ranger e as pessoas tentavam espiar do muro o que acontecia na casa azul, o que causava profunda irritação em tia Zuleica. Ela capengava pela casa até cansar e gritava por Marina, que vinha correndo do quarto, ajeitando a saia com uma das mãos e com a outra segurava o cálice de licor de anis para a tia. Fechava rapidamente as cortinas para que a velha não notasse seu rubor.

Naquele dia, enquanto Marina esfregava o chão da cozinha, tia Zuleica tratou de se acomodar no sofá da sala para tomar a canja rala, quase sem sal, babando um pouco na camisola e foi para a cama resmungando da falta de gosto na comida e na vida. Assim Marina aproveitou o tempo para dançar na frente do espelho sem música, sem fazer barulho, encarando sua imagem pouco nítida. Pensando, sorrindo.

A vizinhança estranhamente se deliciou quando uma viatura estacionou na frente da casa e dois policiais levaram Marina embora pelos braços na manhã seguinte. Algemada. O portão rangeu só mais aquela vez. Depois foi só o falatório no portão das casas.

Ninguém soube direito que fim levou Zuleica. Só Lucimar, vizinha de muitos anos, sabia o segredo. Por acaso, vira Marina arrastando um baú enorme em direção ao terreno baldio, bem do lado da casa do seu Maneca na noite anterior. Ela passara a noite cavando, o que sem dúvida era muito estranho. Não tinha nada a ver com a vida das duas ou com a perversidade de Marina, mas ainda assim resolveu fazer uma denúncia anônima à polícia. Queria Marina longe dali, afinal não gostava do jeito que a outra olhava para seu filho.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

instantâneo

O casal chegou ao motel a pé, de mãos dadas. Rudinei disse a Franciele que o carro estava no conserto e ela disse que tudo bem, porque era perto.

Eles se conheceram no forró, dançaram quatro músicas seguidas, Franciele sentiu que era com ele e não contou até três quando Rudinei a beijou no pescoço. Vamos, vamos. Mas diante da cama redonda ela se intimidou. Pediu para apagar a luz, assim ficaria mais à vontade. Rudinei concordou e ligou o som ambiente para criar um clima. Na quase escuridão Franciele tirou timidamente a calcinha e o sutiã com enchimento e foi. Embaixo dos lençóis, Rudinei tirou a bola de meia da cueca e foi. Se encontraram no caminho, os dois, e se conheceram com as mãos, e gostaram do que encontraram.

Saíram uma hora depois de cabelo molhado do banho. Franciele pegou um sabonetinho para guardar de recordação. Rudinei se preocupou com a hora. O que diria à esposa?

A despedida foi no ponto, quando o ônibus dela aparecia no começo da rua. Franciele levou na bolsa o telefone dele anotado num papelzinho e no peito, o coração disparado. Rudinei acendeu um cigarro e pensou que as mulheres estavam muito fáceis hoje em dia, mas que talvez pudesse dar uma chance a Fran... Francineide? Francisca? Como era o nome dela mesmo???

terça-feira, 27 de julho de 2010

papai do céu não gosta

Dudu, 5 anos, foi cutucar a saia da mãe na cozinha, durante um jantar:
- Mamãe, gente come bunda?
- Hein? De onde você tirou isso, garoto?
- O papai que disse.
- Ele disse isso?
- Eu juro!
- Diz pra mim o que foi que ele disse, meu filho.
- Ele tava dizendo pra tia Sandra lá na sala que queria comer a bunda dela.
- Ai, não! A Sandra não!
- Isso é ruim, mamãe?
- Hum... hããã... não, não, Dudu. Isso quer dizer que seu pai está querendo sair da dieta e pode passar mal.
- Ele pode morrer se comer a bunda da tia Sandra, mamãe?
- É, Dudu, é mais ou menos isso. Papai do céu não gosta de quem come bunda.

Dudu entendeu bem o recado e nunca se atreveu a cometer o pecado de comer uma bunda e morrer de indigestão. Namorou, casou, teve três filhos com Andréia e seguiu sua vida. Já Andréia tratou de saciar a curiosidade sobre bunda e afins com o vizinho da rua de baixo. Que papai do céu a perdoe!

terça-feira, 20 de julho de 2010

Edna Rosa

O circo estava na cidade havia dois dias e Edna roía o sabugo dos dedos enquanto esperava o domingo chegar. O vestido azul de florzinhas amarelas estava separado desde quarta-feira, com a pequena bolsa de crochê, o sapato preto da missa e até a calcinha, a mais nova.


E quando o domingo chegou? Que alegria! Não, estava de castigo pelas notas baixas no boletim, e teve que escapulir pela janela dos fundos quando a mãe e a irmã mais velha saíram para a igreja.

E lá foi Edna, pelo caminho de barro, atrás do circo.

Embaixo da lona tudo era colorido, surpreendente, estranho, deslumbrante e mágico como ela tinha imaginado, e Edna não parava de rir e tentar absorver o que via ao redor, sabendo que dali em diante não conseguiria mais ser a mesma. Quando voltou para casa, se esgueirando entre as roupas no varal, tinha os olhos cheios de encantamento e sonhos, e soube o que deveria fazer.

Era uma bela manhã de sol. Edna se vestiu para o colégio, tomou café com pão, colocou a mochila nas costas e saiu, seguindo o caminho de barro até chegar à estrada, que não levava ao colégio. Ela andava e sonhava com o amor do trapezista e a amizade do palhaço, uma vida com mais alegria, solta no mundo, vestida de malha rosa. Edna Rosa seria seu novo nome!

Dois quilômetros depois, o terreno onde ela conhecera o circo. Só o descampado, sem a lona armada, sem o trailer dos artistas, a barraca de doces, o carrinho de pipoca, a bilheteria, a gente toda, o riso. Edna piscou uma vez, outra e mais outra. Nada havia além de marcas no chão.

Edna chorou um pouco, mas não voltou para casa. Mirou o horizonte limpo e seguiu atrás da fantasia de menina, de dias cor-de-rosa que a aguardavam mais adiante.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

e era tanto amor

O taxista Toninho nunca deixa uma dama na mão. Não que aquela ali parada na calçada pudesse ser considerada uma dama, mas em fim de mês não podia recusar uma corrida.
Parou o táxi alguns metros adiante e olhou-a vindo pelo espelho retrovisor. Ela mesma abriu a porta e sentou no banco do passageiro.
- Pensei que não fosse parar!
- Me distraí, dona.
Toninho ficou desconfiado, porque ela usava uma peruca que cobria boa parte do rosto. E se fosse uma bandida, uma sequestradora, uma matadora de aluguel? Deu uma boa olhada no que conseguiu. Realmente tinha boas coxas, coxas que valeriam a pena o risco.
- Não te atreve, cara, senão eu passo fogo!
Toninho levou o maior susto com a arma apontada para o seu nariz. Não tinha muita certeza, mas ela se parecia demais com alguém do seu passado.
- Ivonete! Eu tava desconfiando... é você mesmo?
Aqueles olhos azuis e estrábicos só podiam pertencer a uma mulher.
- É tu, Toninho?!
Não era qualquer um que tinha dentes de enxada muito separados na frente.
- Não acredito! É tu mesmo? Tu estudou tanto pra virar motorista de táxi?
- É, não teve jeito... advogado ou não, eu tenho que ganhar a vida. Mas o que VOCÊ anda aprontando com esse trabuco na mão?
- Desde a última vez que a gente se viu muita coisa rolou. Se tu me pagar uma bebida eu podia contar...
- Não vai dar. Tô com o dinheiro contado.
- Tu negas um trago pra mulher da tua vida?
- Que me largou sem uma explicação.
- Tu sabes como o Maycon mexia comigo.
- Tu sabes que eu te amava acima de tudo.
- Vai me pagar uma bebida ou não?
- Não dá, meu. Eu tenho mulher e filho me esperando em casa.
- Se é assim, então me passa tudo de uma vez, a carteira, o casaco e a chave do carro. E pode ficar com a peruca.


sexta-feira, 25 de junho de 2010

ele, ela

Ela entrou primeiro, ele veio atrás, com várias pastas na mão. Ele sorriu primeiro, ela baixou a cabeça de leve, sem saber para onde olhar. Estava atrasada para uma reunião. Ele olhou para o chão e viu que ela usava saltos e tinha pés bonitos. Os dedos pequeninos, as unhas pintadas de vermelho, a pele branca, muito branca. E tinha pernas fortes, esguias, igualmente brancas. E sedutoras. Ele comentou a chuva lá fora, ela olhou o relógio. E então ele a olhou por inteiro, e a quis toda, entre as quatro paredes do elevador. E então ela levantou o olhar e percebeu que ele existia, quente e viril, debaixo do uniforme. Ele a olhava tão íntimo, a desnudava das roupas e das obrigações. Ela ardia sob o olhar dele, e imaginava o roçar dos lábios nos lábios dele, a pele quente, suada, nas mãos dele, os quadris colados nele, o abandono. Ele apertou o botão de emergência... ela entreabriu os lábios... e o resto você já sabe.

sábado, 19 de junho de 2010

terapia de casal

Estela: Eu sempre quis que o Ulisses lembrasse do meu aniversário. Não porque eu precise de presentes caros pra me sentir amada. Um beijo bastaria. Na véspera eu costumo dar pistas, com jeitinho, e nem assim ele se toca. Aí chega o dia e eu sou obrigada a falar. Ele pede desculpas e me abraça, promete lembrar na próxima vez, mas isso nunca acontece.

Ulisses: Tem horas que não consigo entender a Estela. O fato de eu esquecer datas especiais não quer dizer que eu não a ame mais. Às vezes estou cansado demais, procupado com o trabalho, com as prestações da casa, com os namorados das meninas, até mesmo com ela. Me sinto culpado quando ela me olha decepcionada, mas não vejo essas pequenas falhas como motivo de afastamento e mágoa.

Estela: Mas o Ulisses bem que podia enxugar a louça uma vez ou outra, colocar o lixo na rua sem eu ter que gritar, cobrar horário das nossas filhas... me sinto sobrecarregada com a casa e as meninas.

Ulisses: Parece que a Estela não dá a mínima pro meu cansaço. É verdade que eu tenho preguiça de enxugar a louça e não sou muito rígido com as meninas, mas nunca deixei faltar nada em casa. Isso também é importante, não é?

Estela: Eu sei, eu sei que o Ulisses faz tudo pela família, mas acho que sinto falta de romantismo na nossa relação.

Ulisses: Se a Estela fosse um pouco menos estressada, só um pouco.... a gente poderia se entender melhor. E ter mais sexo também...

Estela: E teria, se o Ulisses tivesse parado de fumar como prometeu.

Ulisses: Eu ia parar de fumar se a Estelinha aprendesse a fazer um Tutu à Mineira tão bom como o da minha mãe.

Estela: Eu faço o que posso, mas ele continua vendo TV até tarde.

Ulisses: E ela estoura o limite do cartão todo mês.

Estela: E ele solta pum debaixo das cobertas.

Ulisses: E ela esquece de dar descarga depois de fazer cocô.

Estela: Ele tem chulé!

Ulisses: Ela tem mau hálito!

Estela e Ulisses: Eu quero o divórcio!!!

Terapeuta: Finalmente vocês concordam em alguma coisa!


quinta-feira, 17 de junho de 2010

fantasias de uma dona de casa no bar da esquina

Ele estava com outra mulher, sentado à sua frente. Ela arriscou um olhar para ver o que acontecia. Ele sorriu, mas foi muito rápido. Ela tomou um gole de cerveja e olhou de novo, querendo uma confirmação. Dessa vez ele não olhou, apenas beijou a mulher que o acompanhava. Beijo na boca, beijo babado, de língua, de entrega total. Ela teve vontade de ir embora na mesma hora, mas foi obrigada a esperar pela boa vontade do garçom. Pediu a conta. Ele também. Ela torceu para a mulher ir ao banheiro, só que a outra não se mexeu para isso. Os dois se levantaram para sair. Ao passar por ela, ele deslizou rapidamente a mão por seus ombros e puxou a alça do vestido, sem olhá-la. Ela sentiu um arrepio como há tempos não sentia, um aperto por dentro, uma vontade insana de arrancar a roupa e se entregar para ele no meio do bar, diante da mulher e de todos. Ela os seguiu com os olhos até a saída e terminou a cerveja e respirou o ar quente da noite antes de ir para casa.

Ainda o viu algumas vezes no mesmo lugar, à mesma hora, sempre com mulheres diferentes, e sonhou com o dia em que chegaria a sua vez de deslizar o corpo sobre o corpo daquele homem. Mas isso jamais aconteceu, porque seu marido não a deixou mais sair sozinha depois que voltou de viagem.

terça-feira, 15 de junho de 2010

tá limpo

- Rose, queria falar com você um minuto, pode ser?
- Claro, o que foi, meu amor?
- Eu tô balançado por outra pessoa e tô indo embora.
- Eu acho que não entendi direito. Que história é essa?
- Não queria que fosse assim, mas resolvi contar porque te considero muito e quero jogar limpo.
- E você já ficou com essa pessoa que te "balançou"?
- Fiquei... uma vez, uma vez só.
- Transou com ela?
- Sim...
- E foi bom?
- Prefiro não falar sobre isso.
- Mas eu quero, e nós vamos falar sobre isso.
- É... que é muito recente.
- Recente quanto?
- Dois meses?
- Você esperou dois meses pra vir me dizer alguma coisa e diz que é recente? E quem é ela, pelo menos eu posso saber?
- É... é a...
- Quem, porra?!?!
- É a tua massagista.
- A Vanda? Essa é boa! Não era você que ria porque ela falava "poblema"?
- É.
- E agora você come a Vanda e não tem "poblema", não é? Então vou jogar limpo também: eu espero que você se foda com aquela vaca que fala errado, que vocês dois morram!
- Que é isso, Rose? Não conhecia esse teu lado.
- E antes de sair deixa um cheque pela metade das compras do mês, e a chave do carro e do apartamento. Ah, e devolve aqueles quinhentos reais que te emprestei semana passada.
- Mas, mas...
- E isso é só porque eu te considero muito, viu, Luís Cláudio?

segunda-feira, 7 de junho de 2010

ETERNOS NAMORADOS

- Que porra é essa, Malu?
- O que sobrou do almoço mais o que tinha na geladeira. Não prestou?
- Ah, que ótimo! Tomara que eu não tenha uma dor de barriga.
- Duvido muito. Tens estômago de avestruz.
- A gente acostuma com o que tem.
- Eu que sei.
- Não tás a fim, não? Depois...
- Eu pego às duas, fofo. Olha ali a pia. Tá lotada de louça. Vê se come logo e não mastiga de boca aberta.
- Me dá um suco? Tô agoniado.
- Só tem água, pentelho da minha vida. Faz tempo que o suco acabou.
- Quanto mais tu me avacalha mais eu fico com tesão. Tu não devia nunca ficar assim de costas.
- Tava bom de tu enxugar a louça pra mim.
- Tás sem calcinha?
- Te interessa?
- Hum, e como!
- Me dá o prato.
- Tó.
- Lambesse? Imagina se tivesse bom!
- Eu queria lamber outra coisa.
- Ó, pega o pano e te vira. Vou tomar banho.
- Deixa eu esfregar tuas costas?
- Eu sei o que tu queres esfregar...
- Tua bundinha gostosa!
- Tira a mesa que já tem mosca rondando.
- Ai, Malu, e passar talquinho nas partes, tu deixa?
- Ah, vá...

quarta-feira, 26 de maio de 2010

TUDO É POSSÍVEL

Susan comprou um belo vestido vermelho e convidou Sérgio, o marido, para ir ao cinema e depois jantar na cantina perto de casa.
Mais tarde...
- Benhê, o que você achou do meu vestido novo?
- Tá ótima. Vamos?
- Você não acha que eu fiquei meio barriguda?
- Já disse que está ótima.
- Tem certeza de que não me achou mais gorda?
- Tenho.
- Seu olhar diz outra coisa.
- Você bebeu?
- Não, só queria sua opinião sincera.
- Ah, entendi. Então lá vai: você está acima do peso pros padrões atuais, deveria perder uns dez quilos pra contentar suas amigas, mas eu não me importo com essas besteiras, te amo do jeito que você é. Podemos ir agora?

POSSIBILIDADE 1
Ao ouvir as palavras do marido, Susan saiu da sala chorando e trancou-se no quarto. O casal não foi ao cinema, não jantou fora nem fez sexo nessa ou nas próximas noites. Susan ficou deprimida e viciou no Prozac.

POSSIBILIDADE 2
Susan trocou de roupa quatro vezes antes de se decidir. Quando sentiu que estava confortável dentro de um conjunto velho, desceu para encontrar o marido. Pegaram a próxima sessão.

POSSIBILIDADE 3
Apesar da insegurança, Susan não trocou de roupa para não perder mais tempo. Adorou o filme! No outro dia começou a fazer dieta e se matriculou no pilates. E nunca mais perguntou ao marido se estava gorda.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Disinganado

- Como é que é, malandragem, num vai trabalhar, não?
- Ô mulher, tô sentindo uns negócio aqui por dentro. Hoje é que num vou sair do barraco. Ó só como é que eu tô pegando fogo.
- Ficou louco?! Os homem te manda embora. E os bacuri? A gente nunca passamo fome nessa vida, Bastião.
- Tô com muita dor, minha nega. Num tô guentando. Acho que vou morrer.
- Deixa eu dá uma olhada.
- Os doutô mandou eu ficá sossegado...
- Tu foi vê os médico?
- Tô disinganado, Ceição, foi o que me contaram. Num tem curandeiro que me dê jeito.
- Num vamo desesperar, Bastião. Nós tira um dinheirim debaixo do colchão pra te tratar.
- Ô vida miserávi! Num sou um traidor fio das puta que mexe com as mulher dos outro, boto comida no barraco e nunca neguei um chamego pra tu, Ceição.
- A gente sabemo disso tudo, Bastião.
- Os bacuri tão quase chegando. Qui é que eu vou dizê? Tô suando! Vou borrar nas calça!
- Nós faz que não é nada.
- Ceição?
- Diz, Bastião.
- Tá perto...
- Num diz besteira!
- Queria fazer um último pedido.
- Seu safado! Não me diz que tu tá querendo...
- Daqueles lado de lá num vô podê mais.
- Desembucha, homem! Que é que tu quer da Ceição?
- Um pirãozinho com peixe ia bem pro último almoço. Se tiver uma branquinha, melhor ainda.
- ...


Nada aconteceu com Bastião. Ele foi apenas mais uma vítima de exames trocados. Continua comendo bem, bebendo quase sempre e fazendo dengo pra Ceição, que segura as pontas lavando pra fora enquanto ele procura emprego.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Acerto de contas

Ele chegou com um “Oi, tudo bem?” e foi entrando, como se nunca tivesse ido embora. Não esperava vê-lo tão cedo. Pelo menos não nos próximos cinquenta anos. Fim de relação. Ponto.

- Vim pegar resto das coisas. Espero não estar atrapalhando nada.

Uns livros velhos e outras tralhas sem importância. Grande coisa!

- Tô fazendo um macarrão. Quer?

- Não, obrigado.

- Ainda não separei direito tuas coisas. Não quer voltar amanhã?

Seu namorado em potencial poderia chegar a qualquer momento e um encontro com o ex não era algo que pudesse contornar sem constrangimento. Mais tarde, quem sabe, para provocar uma cena de ciúmes.

- Prefiro que seja hoje. Tem problema? Não quero demorar, tem alguém me esperando lá embaixo.

Isso não passava de pretexto para avisá-la de que havia outra pessoa. Atingi-la, quem sabe. Bendita curiosidade feminina que a fazia fantasiar uma deusa e torcia para que fosse o contrário. Maldita inveja feminina que temia ser a outra uma mulher mais desejável, mais bela, mais...

- Tudo bem, então.

- Esperando alguém?

- Não, ninguém.

E por que não a vingança? Por que não dizer que Eduardo estava quase chegando do supermercado, cheio de compras e de amor para dar? Ah, aquela velha história do revide. Ele é melhor do que você, meu bem.

- Encontrei seu irmão esses dias. Ele comentou sobre um jornalista gaúcho – olhou-a esperando uma afirmação.

Mas que fofoqueiro!

- Ah, o Eduardo... - pausa necessária para criar suspense e valorizar a informação. - É só um amigo com quem saio às vezes.

Um amigo com quem fazia sexo segundas, quartas e sextas e dividia seu macarrão instantâneo depois. E que não reclamava do gosto, nem de uma coisa nem de outra.

- Desculpa, acho que não é mais da minha conta. Os livros ainda estão no mesmo canto?

Livros, livros. Só livros o tempo todo. O que mais se podia esperar de um professor de filosofia? Livros empoeirados, amarelados, caindo aos pedaços, que ele não largava de jeito nenhum. Passara cinco anos implicando com esses livros, jogara alguns fora numa operação de limpeza da qual ele nunca desconfiara. Essa pequena vingança infantil dava-lhe vontade de rir agora.

- Estão. Não mexi em nada.

Por muito pouco não havia jogado tudo fora.

- Vou vender alguns. Onde estou morando não cabe a metade.

“Vender alguns”? A coisa estava realmente ficando séria. Em outros tempos, não tão remotos assim, os livros eram sua vida, sua companhia antes de dormir.

- O quarto está uma bagunça. Nem tive tempo de fazer a cama.

A cama desfeita, os lençóis amarrotados, amontoados. Acordara com Eduardo e tudo ficara daquele jeito. Poderia ser um convite, mas não era.

- Continua tudo igual. Sabe que às vezes eu sinto falta daqui?

Seria o cúmulo agora ele relembrar as últimas cenas de sexo à beira da cama. As investidas noturnas dele. Não perdeu a chance de ser irônica:

- Falta do quê? Do vazamento no banheiro? Ou da janela quebrada?

- Das coisas que a gente fazia.

Aquilo era um olhar malicioso? E aquele tom de voz?

- Jamais vou esquecer que você disse que não dávamos certo. E todas as outras baboseiras que eu tive que ouvir.

- Eu quis dizer fora da cama. Ah, esquece! Com você não dá para conversar mesmo.

- Ah, não, agora fala.

- Eu não ia dizer nada, eu não queria, mas já que VOCÊ TOCOU NO ASSUNTO... você é implicante e não suporta ver alguém se divertir sem você.

- E você é egoísta e... velhaco! Ainda não pagou o jantar de aniversário da tua mãe que eu banquei sozinha.

- Ah, é baixaria?

- Foi você quem pediu.

- Eu sempre te achei morna na cama. Sexo com você era uma obrigação.

- Pois você, meu bem, nunca me fez gozar. Eu fingia o tempo todo. Gemia de tédio, cansada de tentar te ensinar como me tocar.

- Ahhh... sua filha da...!

- Agora é assim? – sentiu a excitação conhecida. – Eu te odeio!

- Então mostra. Vai, mostra que eu quero ver. Estou esperando.

Imaginou-se abrindo o zíper dele. E repetindo as antigas cenas, que nada tinham de fingimento ou tédio.

- O Eduardo vem aí – falou sem muita convicção.

Abriu o zíper. Era quase tarde demais.

- A Cíntia está me esperando no carro – ele conseguiu balbuciar antes de tirar a camiseta dela.

Os corpos seminus, tão próximos. Era tarde demais.

- Será que eles...?

Era tarde.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

De última hora

- Meu bem, tenho uma notícia...
- Que foi, Mauro? A empresa faliu, não é? Bem que eu avisei que o negócio era arriscado. Mas você é teimoso, não me ouve, quer fazer tudo do seu jeito. Aí dá nisso.
- Não, não... nem sei como dizer...
- Já sei, não precisa fazer essa cara de choro. Você tem uma amante que está te chantageando, não é? O que ela pediu? Foi dinheiro, foi?
- É muito pior que isso.
- Pior? Você é... gay?
- Minha mãe morreu, Elza! Morreu!!!
- Ah, bom. Por que você não falou duma vez? Preciso mandar lavar aquele terninho do velório da tia Candinha agora mesmo. Você guardou o número da lavanderia? Será que dá tempo?

sábado, 15 de maio de 2010

reedição especial - porque eu gosto muito...

PRIMEIRA E ÚLTIMA

Depois da transa ela fica puxando assunto. Ele está com sono, acabado após duas horas de movimentação intensa sobre o colchão de molas. Não existe mais força. Nem para fumar um cigarrinho ou perguntar: "Foi bom pra você?".
Mas não adianta fechar os olhos e tentar engatar um cochilo. Ela insiste, faz massagem para criar um clima, convencida de que uma vez só não basta.
E ele? Ele não liga, ou melhor, desliga. Involuntariamente relaxa, e, virando o corpo, solta um estrondoso pum. Ela não se conforma:
- Isso é tudo que você tem pra me dizer?

quarta-feira, 5 de maio de 2010

A Cura

Não era bem o que ele queria dizer, mas saiu, baixinho, sem querer. Era a última semana de aula e não podia perder aquela chance. Quase um ano engasgado pelos cantos do colégio, fingindo não vê-la, seguindo-a com olhar onde quer que fosse. Escrevia longas cartas que nunca seriam enviadas. Guardava-as numa caixa de sapato debaixo da cama, a salvo da curiosidade alheia. No colégio rabiscava sem parar o nome dela na última página do caderno enquanto todos achavam que estava fazendo a lição.

E apesar de faltar tão pouco para o fim das aulas ele continuava encolhido no corredor ao vê-la chegar, protegido do sofrimento e da humilhação de ser recusado. O coração descompassado, as mãos trêmulas, enfiadas no bolso, a boca paralisada, dormente, inerte, covarde. Tinha tanto medo que nem ousava levantar os olhos. Era só sentir o perfume doce no ar para fixar o olhar no cadarço do tênis.

Tinha consciência de que se não tentasse nada logo a perderia para sempre. Para um cara mais velho que já soubesse dirigir. Para o novo colégio em uma cidade bem longe que nunca conheceria. Para toda a vida. E nem pensando dessa forma ganhava coragem para encará-la.

Até que aconteceu. Foi depois da aula de matemática, na quinta-feira, e ele não estava preparado. Rabiscava a última página do caderno quando ela se aproximou. Sorriu sem mostrar os dentes, um sorriso de compreensão. E ele começou a suar ao vê-la tão perto. Queria beijá-la como nos filmes, pela primeira vez. O estômago apertava, tudo o que havia dentro dele chacoalhava e se contorcia. Chegou a pensar que fosse vomitar na frente dela.

As outras meninas olhavam da porta, cochichavam e riam. Ele levantou um pouco o rosto e então ela comprimiu rapidamente seu lábio contra o dele, deixando-o sem reação. Não entendia o porquê daquilo e não ligava mais para as meninas que riam alto. Elas que rissem. Ele estava em êxtase, concentrado na doçura dos lábios dela.

Havia sido um instante mágico, ele disse "Não vai, eu gosto de você", mas logo ela não estava mais na sala para ouvi-lo. Não tinha fotografias para guardar, só um beijo. E ele nunca mais a viu, não soube o que foi feito dela, se casou, se teve filhos. O nome dela lembrava bem, era Camila, e ele nunca mais gaguejou.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Fast forward

Felipe e Taci se conheceram pelo Twitter. Ele tinha um amigo que seguia a Taci e achou seus tuítes divertidos. No dia seguinte surgiu a curiosidade de saber como o outro era, e as webcams foram ligadas. Em dois dias, sentiam-se íntimos conversando horas a fio pelo MSN, espiando fotos e bisbilhotando no Orkut do outro. No terceiro dia, deixaram escapar o número do celular. E, pelo celular, o endereço. No quarto, trocaram confidências e admitiram a atração. No quinto, fizeram sexo pela internet. Finalmente no sexto dia combinaram de se encontrar. E chegaram no shopping quase à mesma hora, de banho tomado e camisinha escondida no bolso. E se olharam, de longe. Se aproximaram sem saber o que esperar, e um beijo no rosto foi o máximo de intimidade que se permitiram. Felipe achou que Taci falava demais. Taci considerou Felipe muito retraído ao vivo. Ele olhou o relógio. Ela pediu um cigarro. Ele disse que não fumava. Ela olhou uma sandália linda na vitrine. Ele disse que estava atrasado. Ela disse que precisava comprar um presente. E nunca mais se falaram.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

se é assim

Eu era uma boa esposa pro Jacinto. Lavava, passava, cozinhava, e esperava. Não tinha muito com quem falar, e só saía de casa pra ir na missa e levar a roupa passada pra dona Cininha. Uma vez ou outra ajudava seu Antônio no balcão da venda, mas não era por necessidade, era porque eu gostava mesmo.

O Jacinto, meu marido, viajava pra botar dinheiro dentro de casa todo mês. Contava que nas andanças pela cidade vendia peruca, dentadura e batom pras madames, e era bom que só ele pra levar elas na conversa. Se ele dizia, eu acreditava.

Quando ele voltava, eu corria pra venda e trazia a cachacinha especial que o seu Antônio vendia fiado. Dependendo do dia, conseguia um pote de mel ou uma linguiça defumada. O seu Antônio fazia qualquer coisa pra agradar, nunca deixava faltar nada em casa enquanto o Jacinto estava fora.

Janta pronta, eu esperava na porta o Jacinto chegar cansado da estrada. Ele vinha contente, e eu pedia pra ele falar das histórias do povo da cidade enquanto enchia o bucho. Ele dizia que estava com saudades da minha rosquinha de polvilho e das cuecas lavadas, e daí eu achava que lá na capital ele não tinha quem cuidasse direito dele.

Ainda lambendo os beiços, ele ia pra janela palitar os dentes e olhar as estrelas. E mais tarde se jogava na cama sem passar uma água no corpo, e dormia o sono dos justos. Era ele roncando e eu rezando pra Nossa Senhora Aparecida ajudar ele a ter sempre muita saúde pra viajar e vender mais coisa bonita pras madames.

Minha vida com o Jacinto era assim, até o dia em que ele voltou quieto, e nem quis saber da minha comidinha caprichada. Bem que eu achei esquisito ele voltar antes do tempo, mas não falei nada. Dei a janta pro porco e arrastei a mala pra dentro.

Na hora de deitar é que o Jacinto abriu a boca. Eu dobrava as roupas e ele confessava que tinha mulher e cinco filhos na cidade. Pela primeira vez depois de dezoito anos de casada eu via o pobre chorar feito bezerro desmamado, e chorei com ele, porque vi que não tinha mais jeito.

Mandei o Jacinto pegar a mala e voltar pra cidade pra buscar a mulher e as crianças. Ele não entendeu nada, mas foi. E eu, que não sou besta nem nada, arrumei minha trouxa e fui pra casa do seu Antônio da venda, que tomava banho todo dia e fazia umas coisas doidas quando deitava comigo. Esse sim era o homem que eu pedi a Deus.