segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

MAIS UM

Estou na academia perguntando alguma coisa ao instrutor, quando um antigo colega se aproxima. É um médico - gastro - e tem lá seus setenta e tantos. Sorrio, como sempre faço quando ele passa, afinal ele sempre me cumprimenta. Assim sendo, me sobrou o comentário dele para o instrutor:
- Ela não é a mais bonita da academia, mas com certeza é a mais simpática.
Não sabia se ficava lisonjeada pelo "simpática" ou aborrecida pelo "não é a mais bonita". Daí sorri, todos sorriram e por aí ficou.

Passada a surpresa, analiso e concluo que isso é interessante. Talvez até melhor do que "engraçada", como o instrutor já me chamou, ou "figura" e "louca", como outros me elegeram. "Simpática" é legal, vai.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

vinte e seis

REDENÇÃO

Chico estava na padaria com seu Érico, mas deixou café pronto na térmica. Fui atrás dele arrastando o chinelo. Vi que atendia uma senhora no caixa. Esperei ele contar o troco e ser gentil com a mulher. Ele me olhou com culpa antes de vir me abraçar e dizer de novo que sentia muito.

- Faz favor de me dar parabéns, Chico.

- O que tu vai fazer hoje?

- Quero ir à praia. Vamos? Não dá pra ficar trancado aqui num dia como esse.

- Não tem ninguém pra ficar no caixa. Pode ser mais tarde?

- Sem problema. Me empresta o fusca? Dou umas voltas por aí e mais tarde venho pegar você pra gente nadar. Você vai mesmo, né?

- Vou.

E ainda tirou cinquenta reais do caixa para a gasolina. O que deu no Chico hoje? Estava arrependido pelo tapa na cara, era isso, só podia. Quando vim buscá-lo no fim do dia, não estava mais ansiosa, tinha calor, sede, vontade de nadar e chupar picolé. Ele usava uma bermuda velha e estava suado.

- Passou protetor?

Não tinha quase ninguém na praia. Passava das oito. Estendi a toalha para ele e fiquei de pé olhando o mar. O papel dizia que eu tinha nascido perto da meia-noite, então ainda havia tempo.

- Deita aqui comigo.

- Tô ouvindo direito?

- Deixa de besteira, menina. O sol tá se pondo. Deita aqui pra ver.

Eu não queria mais, mas deitei. Chico pegou minha mão e segurou forte. Nos olhamos, olhamos o sol fraco ir descendo no horizonte até se esconder atrás das nuvens. Voltamos a nos encarar.

- Eu quero ser bom pra ti, te proteger. Mas você me assusta com essas ideias malucas.

- Não são malucas, você é que não me entende. Se não fosse essa situação você ia me querer?

- Isso não tem nada a ver.

- Tem, sim. E você não tem coragem de admitir que me quer como eu te quero. Você iria embora comigo prum lugar onde ninguém conhecesse a gente? Eu iria.

- Tá vendo como você é?

- É como eu vejo as coisas, só isso. Quero que você me ame, Chico.

- Eu não posso... não do jeito que tu quer.

- Como você sabe?

- Tu é minha irmã, porra!

- Eu não tô falando só de sexo.

Ele calou. Se achava que eu iria pular sobre sua barriga e implorar estava enganado. Eu me sentia quieta e pensativa. Meus sentimentos por ele continuavam ali, em algum canto de mim, mas aquilo era tão doído e precioso que depois de ontem eu preferia não tocá-lo mais. Que ficasse tudo como estava, eu deitada ao lado de um homem lindo e desejado, mas inalcançável. E inseguro. Já não tinha esperança, só desejava, ainda desejava, o peito fervia, as mãos formigavam, a boca tremia, eu silenciava diante de todas as possibilidades que se desfaziam, como as ondas que batiam na praia a alguns metros de nós.

Eu era a louca, a perdida da família, e não me importava. Fugiria, deixaria tudo para trás se ele estivesse disposto a arriscar. Se. Chico segurava minha mão, só isso. Nunca passaria disso.

- Vou pra água.

- Quer que eu vá?

- Você que sabe.

Tirei a roupa sem olhá-lo e caminhei até a água sem saber se me seguiria. As ondas que me lambiam as pernas foram aos poucos me cobrindo e de repente me vi desaparecendo para ele. Mergulhei nas sombras, fui o mais fundo que consegui e aproveitei esse momento para não pensar, não ser nada, não estar em busca de coisa alguma. Ali me movimentava livremente, abrindo e fechando os braços, as pernas e impulsionando o corpo para a frente sem dificuldade, com toda aquela água ao redor. O mar me possuía, ia e vinha por todas as fendas do meu corpo, me lavava de qualquer pecado que estivesse desejosa de cometer. Estava tão distraída pelas ondulações do mar que não senti Chico se aproximando. Ele era outro, o outro que me queria. Esse estranho que o dominava me puxou debaixo d’água para que eu o percebesse e me envolveu com mãos escorregadias que deslizavam querendo me conhecer de todas as formas, me seguravam e soltavam. Nadei para longe, ele me seguiu e me segurou pela cintura, mas escapei com a ajuda da água. Chico, ou aquele que tomava conta dele, veio e me tomou nos braços. Seus olhos brilhavam de desejo, era só o que eu conseguia vislumbrar na escuridão. E era de uma intensidade que me feria e eu me debati até ele me acalmar com um beijo. Parei de lutar quando os lábios que me chamavam de irmã tentaram roubar o sal da minha pele. Jamais conseguiriam por completo, mas eu deixei que tentasse. Era meu presente de aniversário.

sábado, 18 de dezembro de 2010

SE BEBER, NÃO PEÇA CACHORRO-QUENTE

É o seguinte, explico: eu ganhei uma bendita garrafa de espumante na última sexta-feira. Muito bem-vinda, não vou reclamar. Quem sou eu pra reclamar de um brinde tão delicinha? Então... Hoje namorado estava aqui e resolvemos comer cachorro-quente, nem sei por quê. E eu quis porque quis abrir o espumante primeiro. Namorado fez as honras da casa, e bebi dois ou três goles. Pra quê? Já fiquei outra. Eu? Sim. É que não bebo com frequência, e quando bebo fico alegre, sorridente e muito mais. E foi desse jeito que namorado pediu pra eu ligar pro disque-cachorro. Ai, eu? Lá fui. Pedi o meu sem palha, sem queijo ralado, sem vinagrete, sem maionese, mostarda e ketchup. Pedi praticamente um cachorro magro, né? O do namorado só sem os últimos quatro ingredientes. Tá, mas o moço do outro lado da linha ficou confuso com tantas exceções num mesmo lanche e me pediu pra repetir. Vixe, deu um branco total radiante. Fiquei muda, assim... E comecei a rir sem motivo, namorado riu tanto que saiu da sala. Eu ri mais, com vergonha de rir, mas sem conseguir parar. Se fosse eu a atendente tinha desligado na cara da descarada que ria. Me controlei a tempo para fornecer o endereço correto. Jesus, Maria, José, que esforço pra não rir! O cara pediu por último meu nome, ele também riu! Ainda bem. E falou que não ia esquecer meu nome. Isso é bom ou é ruim? O resultado é que meu cachorro veio com palha. Não foi bem assim que pedi, mas como ia abrir a boca pra dizer alguma coisa? Tudo bem, fica como está. E o jantar foi digno, com espumante voltando pra ficar à mesa, acompanhado do esperado cachorrão. Não é a combinação mais bizarra e maravilhosa de fim de ano?

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

vinte e cinco

E QUANTO MAIS EU DESEJO

Chico estava de costas, trabalhando a massa na cozinha e não me viu entrar. Abracei-o por trás, agarrei-me ao corpo, ao cheiro, às saudades que só eu conhecia. Ele levou um susto e me abraçou timidamente, era o jeito dele. Não ficamos muito tempo, mas foi o bastante para eu senti-lo perto de mim de novo.

- Achei que você vinha mais tarde. Vou fazer um bolo. O pai vai trazer salgadinhos mais tarde.
- Vim te ver, não vim comer, seu bobo.

Ele se afastou e limpou as mãos:

- Tô te sujando com a farinha. Como estão as coisas por lá?
- Tudo certo. A Karen sempre pergunta de você. Ela só não veio porque tem que terminar umas roupas.

Cheguei perto de novo.

- Ela está bem?

Eles quase tinham namorado uma vez, mas Chico era muito pacato para os padrões dela.

- Acho que sim. Por que você não vai visitar a gente uma hora dessas?
- Pode ser. Eu vejo com o pai uma folga.

Passei o dedo na massa. Chico ficava bravo quando eu fazia isso, mas nunca liguei.

- Nina!
- O que é, Chico?
- Não faz isso, não.

Sentei na pia, ao lado dele e fiquei vendo-o trabalhar. Chico não era complicado, nem um pouco. Era assim que eu gostava dele, sem subterfúgios.

- Tem uma bebida aí?
- Tem um vinho aberto no balcão da sala. É do pai, mas pode pegar. Não vai sair com teus amigos?
- Hoje não. Quero ficar com você. Me conta o que você tem feito além de cuidar da padaria.

Fui pegar o vinho. Bebemos na caneca dele, a amarela. O bolo foi para o forno. Só depois ele contou, meio sem querer, que estava saindo com a filha do seu Adão, vizinho da frente. Tive vontade de furar os olhos dela, mas bebi um grande gole e me ofereci para lavar a louça. Chico não me deixou fazer nada, queria que eu descansasse.

Meia garrafa depois estávamos tagarelando e rindo enquanto o forno esquentava a cozinha e o bolo não ficava pronto. Seu Érico chegou com um pacote de empadinhas para mim, me beijou a cabeça. Reclamou que eu não ligava nunca e foi dormir. Ele também tinha bebido.

Chico tirou o bolo do forno com cuidado e enfeitou-o com chocolate e morangos. Só pra mim!
- Vem, vamos dormir.
- Na minha cama ou na sua?
- Não começa, Nina.
- Vamos conversar, não tô com sono.
- Tá bebinha, né?
- Pouquinho. Você também tá diferente, mais alegre.
- Me deixa quieto, tenho que acordar cedo amanhã.
- Ah, até no dia do meu aniversário?
- Não é feriado.
- Mas devia.

Ele seguiu para o quarto, fui atrás antes que fechasse a porta na minha cara e pulei na cama.

- Sai, Nina. Olha como fica apertado.
- Ai, Chico, você tá muito chato. Mas não vou achar ruim, porque você bebeu.
- Tá, fica aí e não me incomoda.

A cada tentativa de aproximação, Chico se encolhia mais. Meu irmão realmente não queria saber de brincadeira. Depois de me acariciar o rosto caiu no sono assim de repente. Coitadinho, estava cansado mesmo. E eu, o que eu faço? Gostaria de me aninhar ao peito dele e adormecer docemente, mas Chico me agitava por dentro, e eu tinha bebido. Precisava me esforçar. Fechei os olhos, pensei na música que ele cantava para mim, pensei em ir à praia se desse sol, pensei em levantar e lamber a cobertura do bolo, e talvez comer um pedaço com café. Apaguei a luz, estava tudo tão silencioso que me deu vontade de cantar. Eu poderia dormir, se quisesse. Eu quero, eu vou ficar quietinha e dormir aqui com o Chico. Os olhos pesaram, e dessa vez achei que daria certo. Eu ia conseguir permanecer inerte, silenciosa, obediente, ia deixá-lo em paz. Ia deixá-lo... mas um carinho entre irmãos não seria nada de mais.

Toquei sua boca bem de leve com a ponta dos dedos, ele não se mexeu. Tinha medo de que a porta se abrisse e seu Érico viesse com a cinta na mão, mas não parei, usando a desculpa de que tinha bebido e não tinha mais freios. Encostei a língua, forcei um pouco, me afastei para ter certeza de que ele dormia. Ele dormia, a respiração longa e baixa no meu nariz. Levantei a camiseta e levei meu peito até o peito dele, meu mamilo enrijeceu, levei até sua boca. Não, eu não tinha ficado louca, nem um pouco, queria experimentar a proximidade que ele evitava. Ele fechou os lábios ao redor do bico, senti a língua molhar rapidamente a pele, depois se recolher. Susto. Baixei a camiseta e me virei, apavorada com o desejo de ir adiante apesar do medo de Chico acordar. Só impressão, porque ele continuou imóvel. Eu não aguentei, eu não pude, eu esqueci de quem eu era, dos laços, do que havia além do quarto. Eu beijei, confesso que beijei meu irmão! E ele correspondeu, no início, com um beijo terno. E eu me aproveitei desse entorpecimento para tirar a minha roupa, a roupa dele, e deitar sobre seu corpo e ali ficar, esperando a fusão, a mistura, o fim da distância e das proibições.

Mas Chico acordou e me bateu, me jogou contra a parede. Ser recusada por ele daquele jeito doeu tanto que me recolhi na beira da cama e chorei.

- Por que toda vez você faz isso?
- Porque eu amo você... tanto.
- Isso não é certo, será que você não vê? Não dá pra ser assim, não pode ser assim.
- Eu sei.
- Eu não queria bater em você.
- Mas bateu.
- Quero que você fique bem, só isso.
- Tenho medo de não ficar bem sem você.
- Vai ficar.

Outra vez Chico me consolou. Vestiu minha roupa e me botou na cama. A dor que eu sentia se desfez com os carinhos dele, e não insisti para ele ficar. Ele cantou para mim, e eu parei de pedir e querer, eu apenas dormi.




terça-feira, 14 de dezembro de 2010

OPERAÇÃO RESGATE

Vou saindo com o namorado. Ele pede para dar uma chegada no banheiro antes, eu digo que tudo bem. Mas ele demora. Penso que deve ter seus motivos e sossego. Dali a pouco ouço meu nome no corredor. O-oh. Faltou papel? Vou correndo salvá-lo do mico, mas ele não abre a porta. Assim não é possível, querido, o rolo não vai passar pelo buraco embaixo da porta. Do outro lado, tão perto, tão longe, ele pede que traga suas ferramentas, e fico sabendo que a chave quebrou na fechadura. O-oh! Faço o que posso, mas confesso que meu lado McGyver não funciona muito bem sob pressão extrema. Tudo que consigo é tirar os parafusos, com medo de levar junto alguma lasca do verniz da porta. Não dá. Então chamo a mãe dele, que vem mais que depressa, pega o alicate e manda ver. Mexe pra lá, torce pra cá, vira, gira, roda e avisa: não tem jeito. A parte quebrada não sai do lugar. Enquanto ela desce pra tentar passar o alicate pelo basculante, eu faço a última tentativa dos desesperados - coloco a chave de fenda numa pequena trava à esquerda, empurro um pouco para a direita e a porta se abre... a porta se abre! Sem suor nem lágrimas, sem fazer muita força, só com o jeitinho da namorada. Ah, essa namorada faz coisa para ter sempre o namorado por perto. ;)