quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

vinte e quatro

HÁ NÃO MUITO TEMPO ATRÁS


Aceitei o convite de Chico para passar meu aniversário lá, estava com saudades. Quando mamãe nos deixou foi ele quem cuidou de mim. Eu tinha dez anos e não entendia muita coisa, mas prestei atenção quando ela falou em seguir carreira na Europa, pois ali ninguém se interessaria por uma cantora lírica. Mamãe era sonhadora, linda e ambiciosa. Tanto que não suportou a vida atrás do balcão.

Lembro aquele dia. Seu Érico estava na padaria, Chico me ajudava com a louça do café e ela se despediu com um beijo na testa como se fosse voltar para o almoço. Esperamos que ela viesse jantar ou chegasse de repente, esperamos até não aguentar mais. Seu Érico foi o primeiro a se convencer de que ela não botaria mais os pés em casa e se afundou no trabalho, disse que a padaria não podia parar. Foi o jeito que ele encontrou de sobreviver ao caos que se formava ao redor. E nós?

Chico era meu irmão e meu herói, meu tudo. Quando fiz onze anos me deu uma prancha de surf. Aos doze comprou meus primeiros absorventes e me ensinou a dirigir. Criei peito, espichei, os pelos foram aparecendo aqui e ali, meu corpo passava por revoluções contínuas e ele falava para eu colocar sutiã e eu me negava, aquilo apertava demais. Daí Chico se afastou. Por que não podíamos mais dormir na mesma cama? Nada de ficar de calcinha pela casa e me agarrar em seu pescoço nem fazer xixi de porta aberta. Eu era toda ira, teimava, ficava emburrada e xingava, e assim cheguei aos quinze anos, rebelde e previsível.

Inventei de ter medo de dormir sozinha para ele me deixar entrar em seu quarto de madrugada. Chico, deixa eu ficar... tô com medo... Ele me dava as costas até adormecer. Quando abria os olhos para levantar eu estava na sua frente, podia beijá-lo se quisesse. O foco só mudou um pouco aos dezesseis, quando arrumei um professor de violão. Beto. Ele estava sempre com hálito de bala de hortelã e os dedos cheios de calos, dedos que faziam as notas soarem trêmulas, muito longas, quando encostavam em mim. Ele não tirava o olho do que a camiseta escondia, mas não se atrevia a chegar em mim.

Eu tive que levantar a blusa para ele largar o violão no dia em que senti que não conseguia mais me concentrar apenas na música. Beto pareceu confuso, a mão permaneceu imóvel por alguns segundos, não mais que isso. Ele olhou com admiração para os dois bicos rosados à sua frente, tocou-os devagar. Meu coração acelerado quase parou naquela hora, o peito subia e descia rapidamente com o contato. Achei que aconteceria, ele me beijou e foi direto: senti a mão na bunda, nas costas, na barriga, em tudo ao mesmo tempo. Senti um assanhamento por dentro, quis abandonar todo o juízo de uma vez só. Mas Beto retirou a mão do aconchego entre minhas coxas assim que ouviu a voz de Chico no portão. Foi embora levando o violão e meu desejo junto.

Seria com Beto, estava resolvido.

Chico desconfiou da minha agitação depois disso, mas não abri a boca, nem uma palavra. Ele fez batatas fritas para ver se arrancava alguma informação, e eu decidi que não ia jantar. Mais perguntas. Ah, tenho que estudar. Ele não se convenceu.

Fui atrás do que queria.

Encontro às seis, lá em casa. Chico já teria ido para a aula e seu Érico estaria tirando uma fornada. Beto foi pontual, estava de cabelo molhado, o gosto forte de hortelã na boca. Fomos para o quarto, eu na frente puxando-o pelo braço. Enquanto tirava a roupa, avisei:
- Depois disso nós não vamos namorar, OK?
Sem entender, Beto deu de ombros. Eu sentia coisas diferentes com ele, mas me achava jovem demais para namorar. Pensei que seria justo que ele soubesse antes.

Deitamos na minha cama. Para aquele dia, lençóis limpos. Estávamos muito próximos, dois corpos estranhos. Ele estendeu a mão até meus quadris e me puxou. Ainda não. Beto apenas me beijou, beijo de hortelã que eu sempre lembraria. Deitou sobre mim, se mexeu um pouco, ajeitando o corpo no meu. Não era nada parecido com os encontros apressados no cinema ou nos corredores ou qualquer outra coisa que tivesse feito pelos cantos com algum vizinho. Era um pau de verdade me cutucando o umbigo!

Suspirei quando ele usou o dedo para ver se eu estava molhada. Não me atrevia a dizer uma palavra, ele devia saber o que fazia, era bem mais velho que eu, e isso me deixava tranquila e seduzida. Só não podia mentir. Doeu quando ele me penetrou. Uma dor normal, como quando caí de bicicleta. Mas esperei e passou, e veio uma sensação de eletricidade, de choque que me percorreu inteira. É só isso? Levantei para pegar um refrigerante, bebemos. Então deitei e fizemos de novo, e dessa vez ele não foi tão gentil, mas eu gostei mais de ficar de bruços enquanto ele me tateava antes da penetração. Eu estava tão feliz que nem me preocupei em descobrir se havia gozado ou sangrado, se aquela ebulição interna era o que deveria acontecer.

Quando pensei em levantar para pegar outro refrigerante, Chico entrou em casa. Tinha que chegar mais cedo! Beto saiu pela janela com a roupa na mão e me deixou na cama. Enfiei o vestido pela cabeça antes que Chico entrasse e saí. Fechei a porta.

Sob o olhar mortal de Chico eu espremi uma coxa contra a outra, para que não notasse que estava sem calcinha e ainda excitada. Onde estava a calcinha? Pensava que poderia ter sido o pau dele em minhas mãos, e apertava mais as coxas. E apertava as mãos, suava. E ria de nervoso. Chico viu meu estado, não havia como voltar. Menti que Beto era meu namorado há algum tempo e jurei que não faria besteira. Por favor... Ele gritou comigo, usou palavras duras que me fizeram chorar e ter ódio dele. Em seguida me sentou em seu colo e disse que se preocupava comigo. Eu sem calcinha. Pediu para eu me cuidar, porque eu era muito nova e os rapazes se aproveitavam. Eu sem calcinha, e o contato com a coxa dele provocou sensações que eu não podia evitar. Ele sentia? Molhei a calça dele.

Beto sumiu como se nunca tivesse passado pelo bairro. Sem se despedir nem deixar bilhete, nada. Quando liguei, disseram que tinha ido estudar em Brasília. Mentira! Tinha o dedo de Chico nisso, e não havia mais nada a fazer. Voltei às aulas de piano e Chico parou de implicar com a ausência de sutiã e até me deixou curar, em sua cama, as dores de amor que achava que eu sentia.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

A CEGUETA DE RAYBAN

Não dá pra ver daí de onde você está, mas sou míope, daquelas que já passaram dos quatro graus e são dependentes de um trocinho sobre o nariz ou grudado nos olhos. Assim sendo, faço da minha rotina um tal de tira óculos, bota lente, tira lente, bota óculos e por aí vai. Hoje, antes de sair do trabalho, devia ter posto as lentes, pois o sol saiu da toca no fim do dia. Nah! Pensei: Ah, tô indo pra casa, é muita mão de obra.
Quando estava seguindo a linha reta que me levaria até meu lar, doce lar, um homem de paletó passou por mim e falou alguma coisa. A mania de estar com foninho de ouvido a vida toda me impediu de saber o que foi dito de bom - ou não. Olhei de lado, ele também. Quem era? Ora, ora, não é que era meu oftalmologista?!
Tirei os óculos de sol, morrendo de vergonha:
- Desculpa, doutor Maurício, não enxerguei o senhor...
Ele riu e respondeu com bom humor:
- Então seu médico não está fazendo um bom trabalho.
Apontei os óculos de grau, pendurados na blusa:
- Tô sem lente e sem óculos, viu?
Ele só me desejou boas-festas e não ficou para ouvir minhas explicações sobre a pouca visão. Eu vim sem enxergar cem por cento e me dei por satisfeita de não ter tropeçado no caminho. A cegueta de Rayban. Oo

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

vinte e três

“AMO VOCÊ, MEU LINDA”

O que eu fui fazer? Além de posar na escola, estava sendo requisitada pelo gringo para sessões privadas em seu apartamento. Joguei a roupa sobre a mesa:
- E agora?
O gringo teimoso mais conhecido como Dieter me colocou na cama com seriedade. Primeiro espalhou meus cabelos sobre uma almofada, olhou, arrumou mais um pouco, depois dobrou minha perna esquerda, me abriu os braços. Me senti excitada nas mãos àsperas dele. Bem que a gente poderia... Tentei beijá-lo, ele me pôs na posição de morta na cama e pediu para eu não me mexer. Que tipo de homem se manteria impassível diante de uma mulher nua e disposta ao sexo? O gringo.

Ficamos muito tempo naquilo, eu sem achar graça de estar de olhos fechados enquanto ele me riscava no papel.
- Vai demorar, Diti?
Ele negou com a cabeça sem perder a concentração.
- Tá calor, eu não aguento...
A previsão era de vinte e sete graus, lá fora. Naquele cubículo deveria estar mais de trinta e nem a ausência de roupa ajudava muito. Eu suava atrás da orelha, embaixo do braço, suava entre as pernas porque imaginava o gringo largando o maldito pedaço de carvão e vindo por cima de mim, trazendo seu suor para se misturar ao meu.

Muito tempo se passou até ele dizer que estava bom e me carregar nas costas para o banheiro. Só entendi quando começou a me ensaboar a bunda com uma animação diferente.
- Não, aí não! Só se for com o dedo...
Ele fez pressão. Apesar da voz mansa, senti que ele vinha com tudo e fiquei na defensiva.
- Para, Diti!
Parecia tão simples quando lia nas revistas de Karen. “Peça ao parceiro para usar lubrificante e penetrá-la devagar. Relaxe.” Como se fosse possível. Ele veio de novo, me empurrou contra o azulejo, assim eu sufoco! O que eu faço? Ele dá dois de mim!!! Me mordeu a nuca... Seria maravilhoso se ficasse nas mordidas pelo corpo e depois me levasse para a cama e fizesse um papai-e-mamãe caprichado. Não, o gringo queria ultrapassar fronteiras. Eu talvez quisesse, mas não desse jeito, esmagada contra a parede. Aproveitei o corpo molhado para me livrar do abraço por trás e escorreguei para o chão.
- Deu, gringo.
Ele ainda resmungou em alemão, tinha mania de fazer isso porque sabia que eu não entendia e ele podia falar o que bem entendesse. Foda-se, gringo! Eu não vou ceder, entendeu?

A expressão de menino contrariado só se desfez quando peguei o barbeador descartável e coloquei em suas mãos. Prêmio de consolação. Seria minha segunda vez, a primeira com ele, mas não passava de uma tática para ver se ele tirava meu backstage da cabeça de uma vez por todas.

Saímos pingando do box. Sentei na privada, Dieter se ajoelhou. O sabonete veio molhado para o meu colo, escorregadio. Fiz espuma e espalhei sobre os pelos. Karen iria gostar de ver que eu finalmente cuidava da depilação... ele não entendeu meu riso solto, nem precisava. Com uma bola de espuma branca entre as coxas, pronto, foi só abrir bem as pernas e prestar atenção para ver se ele fazia direito.
- Cuidado, hein!

Os movimentos suaves e cautelosos como se estivesse fazendo a barba me assanharam. Se ousasse me mexer poderia acabar com um corte feio, me segurei. E ele nem me olhava mais na cara. Passou a lâmina em mim, depois passou a mão para ver se o trabalho estava bem-feito, me enlouquecendo. E alisou a pele branca sem pelos.
- Ai, isso é bom, não para, não.
Apertou-a entre os dedos. A pele, todas as dobras, meu botaõzinho... Assim eu me desmancho, gringo. Ele falava “boceta” daquele jeito engraçado que me fazia engasgar de tanto rir.
- Me leva daqui, Diti!

Na cama, dois dedos para me alegrar, depois três. E então a razão do temor se diluiu nesse contato. Parecia não haver mais espaço entre nós, e ele conseguia ir fundo ao meu encontro, e eu, leve e receptiva, o prendia. E soltava, mas não muito. E o gringo sorria, só ali, comigo. Gozou sorrindo, sem estardalhaço. E me fez feliz quando demorou a sair de mim para fumar um baseado na janela.

Desprovida de pentelhos e de vergonha. Foi assim a última vez com Dieter. Ao acordar ele fez as malas para ver a família e resolver algo sobre o visto. Estava saindo com os cabelos desgrenhados e grandes olheiras, corri para ele e fui abraçada, tão forte que doeu.
- Posso ajudar em alguma coisa?
Descemos juntos. Ele levava um envelope pardo nas mãos. Me levava pela mão cheio de mistério, de silêncio. Pela última vez a voz dele, meu rosto entre suas mãos, o beijo que eu não queria que tivesse fim, as palavras mal-pronunciadas na calçada:
- Amo você, meu linda. Tchau.

Voltei a viver, voltei para a escola, os pentelhos cresceram e coçaram, mas não tive mais notícias de Dieter, o meu gringo...



[Mais Nina aqui.]

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

da seção
UMA COISA É UMA COISA, OUTRA COISA É OUTRA COISA

Se a pessoa tem mau hálito, tudo bem, eu aguento na boa. Faço apneia, posso deixar de respirar por alguns segundos sem reclamar. Ou me afasto um pouco, viro de lado. Agora não consigo me controlar se vejo uma melecona querendo sair do nariz alheio. É mais forte que eu, entende?

Com discrição, aviso:
- Tem um objeto estranho no lado esquerdo [ou direito] do nariz.

O mundo não fica muito mais bonito quando o nariz vizinho está livre e desimpedido?