sexta-feira, 22 de outubro de 2010

SEÇÃO DE ACHADOS E PERDIDOS
a quem interessar possa

Não vamos perpetuar aquela ideia fixa de "vão-se os anéis, ficam os dedos", porque ninguém fica feliz de perder um objeto, tenha ele ou não valor. Vamos ajudar o próximo, pleeeease. Portanto, se você reconheceu uma das peças abaixo, não se acanhe, deixe um recado que faremos o possível para enviar o mimo a seu dono.

Não deixe para amanhã, lembre-se: isso poderia estar acontecendo com você.

[fotos minhas]

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

dezessete

IMPREVISTO


Aconteceu. Tom quis me levar para conhecer a família em Minas, e eu não pude concordar, simplesmente porque não me sentia à vontade com a ideia. Aí ele me olhou com tanta decepção que não aguentei e pedi para terminar. Ele ficou, eu saí do apartamento e andei duas quadras até o bar do Dino, onde a banda tocava. Sentei no canto preferido de Tom e chorei. Pedi uma garrafa de vodca e mandei colocar na conta.

Meia garrafa depois, um homem de jeito desleixado, os cabelos caindo nos olhos, sentou na minha frente:
- Você tem um rosto interessante e canta direito, só precisa de uma polida.
- O quê?
Ele explicou que tinha me visto algumas vezes, se apresentou. Valverde. Era dono de uma gravadora pequena e adiantou que gostaria de conversar.
- Se você tiver interesse podemos ver alguma coisa.
- É mesmo?

Duvidei de tudo que me contou, ouvi por ouvir. Valverde me ofereceu outra bebida. Hã? Olhei ao redor, não havia nada demais, então peguei o copo e molhei de leve os lábios. Ele me fez perguntas, tantas que me senti zonza e bebi mais alguns goles, e achei normal ele se aproximar e apertar meus ombros.
- Você cheira bem - cheirou meus cabelos.
- Que é que tem? Você tem cada uma!
- Você não me conhece.
- Nem quero.
- Acho que você já bebeu sua cota por hoje. Eu te levo.

Valverde - se é que esse era mesmo seu nome - me levou, mas para um quarto mal-iluminado que não era o meu.
- O que você quer? Quer me comer? Se aproveitar de mim?
- Queria ouvir você cantar, mas parece que hoje vai ser difícil.
- Yesss, baby. Hoje estamos fechados para manutenção!
- Para quieta, menina.
- Se você quiser, pode vir. Eu não tenho mais ninguém mesmo.
- Eu não quero você bêbada.
- Você me quer! Não me quer? Diz que me quer, vai...

Para minha decepção ele jogou um lençol sobre meu corpo, se jogou no sofá e ficou me olhando. Apaguei com seus olhos sobre mim e quando acordei ele continuava na mesma posição, me observando atentamente.
- Fica comigo hoje?

Passamos o dia juntos. Valverde me levou para conhecer seu escritório. Ele era atencioso sem parecer de fato interessado. Homem estranho. Andei pela sala pequena, cantei, ri das fotos antigas que me mostrou. Tomamos café olhando a cidade do alto.
- É muito bonito aqui. Eu gosto.
- Pode vir sempre que tiver vontade.
- O que você quer de mim? De verdade.
- Que você cante.
- Só?
- ...
- Não entendo você. Você me leva do bar prum quarto de hotel, depois fica a noite inteira me espiando, me traz pro seu trabalho. Eu não entendo.
- Eu sou casado.
- E daí? Não estou falando disso. Você não quer me beijar agora?
- Quero, mas não devo.
- O que te impede?
- Você ia me destruir.
- Eu não disse? Você tem cada uma...
Pausa. Por um longo tempo. Olhamos para a frente, na mesma direção. O silêncio poderia significar muitas coisas, para mim o fim daquele encontro.
- A gente se vê por aí - me virei para ir embora.

Valverde me segurou.
- Eu não posso ficar sem seu cheiro.
Nosso hálito de café preto era o mesmo. Quente, amargo. Senti as pernas pesadas, o estômago ardendo, quase caí. Ele me colocou contra a parede. Me cheirou, me beijou inteira. E eu ali, agarrada às vezes à parede, às vezes ao corpo dele, instável, querendo, não querendo, vibrando com cada toque, meu sexo se abrindo para ele sem que eu fizesse qualquer esforço. Me vi sem roupa, enlaçando a cintura dele pelas pernas, agarrando-o por dentro, cada vez mais para dentro de mim, na confusão de sensações, fluidos, no abandono do corpo. Eu quis cantar uma música para que ele lembrasse de mim para sempre, mas gozei. Apenas.




segunda-feira, 18 de outubro de 2010

de tanta vontade

Ela olhou para ele da outra ponta do balcão. Não quis sorrir imediatamente, para não demonstrar suas reais intenções. Baixou os olhos, depois tornou a observá-lo. Ele não disfarçava, não parava de olhá-la. Ele a queria também! Ela ajeitou o decote, roçou os lábios em expectativa. E se ele a convidasse para sair dali? E se fosse um depravado? E se quisesse fazer coisas doidas com ela, como seria? O coração bateu tão forte que teve medo de que todos pudessem ouvir. Ele estava vindo, sorria para ela. Ela não queria ter medo, queria aproveitar a vida, e deixar seu coração pular para fora do peito por alguma emoção forte provocada pelo estranho. Abriu seu melhor sorriso, quase abriu os braços para recebê-lo. Ele chegou em seu ouvido:


- Você não é a mãe da Marcinha? Faz tempo que eu tô querendo falar com ela.

Ela não era mãe de Marcinha nenhuma, aliás não era mãe de ninguém. Ela achava que não tinha idade para ser mãe, o sujeito estava precisando de óculos, isso sim! Mas, por via das dúvidas, resolveu marcar uma consulta com o dermatologista no dia seguinte e providenciar umas injeções de botox e de ânimo.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

dezesseis

É SÓ FECHAR OS OLHOS

Eu já não me considerava mais a amiga de mesa de bar, mas não podia afirmar que havia virado a namorada convencional, do tipo que usa anel de compromisso e liga para dizer que está com saudades. Ai, Tom, o que gente foi fazer? Éramos acima de tudo dois palhaços sem amarras, sem destino e sem juízo, ligados por uma mágica inexplicável.

Mas Tom não se contentou com isso, quis mais do que eu podia dar. Que necessidade maluca essa de usar palavras para mostrar o que eu já sabia. Para quê? Por quê? Baixei os olhos quando disse que me amava e continuei escovando os dentes, depois prendi o cabelo. Deixei a toalha cair para provocá-lo e corri para debaixo dos lençóis. Fiz de conta que nada foi dito, era melhor para nós dois, e Tom parou de falar de amor e veio se aninhar em meus cabelos e procurar meu beijo, meu corpo, o que eu tinha para lhe oferecer.

Karen me chamava de imatura e aproveitadora.
- Como é que você transa com o cara que é teu amigo? Até ontem ele ficava aturando tua choradeira por causa de outros caras.

- Qual é o problema? Só porque eu ainda não fiz uma declaração de amor?
- É por aí mesmo.

- Que papo, Karen! Isso parece coisa do Chico. Deixa comigo, tá?


Achei que sabia. Estava na fila do cinema me virando para entregar a pipoca a Tom, tentava equilibrar o troco e a latinha de refrigerante. Eu sorria enquanto procurava Tom e dei de cara com Bernardo e a peituda, que o segurava como naquele dia no elevador. O sorriso murchou. Ainda bem que Tom não o conhecia. Assim era menos uma explicação para dar antes de apagar as luzes.
Foram apenas poucos segundos de susto e eu estava indo na direção de Tom para que ficasse claro de quem eu estava atrás. Bernardo não fez nenhum gesto que pudesse ser entendido como desejo de se aproximar e nem por isso me saiu da cabeça. Merda! Por que eu não consigo me desligar? Talvez ele estivesse atrás, ou um pouco mais adiante. Pensaria em mim enquanto amassava as coxas da peituda por baixo da saia? Lembraria de mim enquanto a beijava no pescoço?

Tom pegou minha mão algumas vezes, tentou se aproximar na escuridão e ser carinhoso, mas não correspondi, não conseguia. Olhei para os lados. Não, ele devia fazer o tipo que prefere sentar lá no fundo para fazer sacanagem. E eu aqui no meio... Tom cochichou alguma coisa sobre a fotografia, inventei de ir ao banheiro, única desculpa razoável para sair de cena. Só um instante.


- O que é que cê tem, Nininha? Tá inquieta.
- Nada. Vou fazer xixi e já volto.

Fiquei do lado de fora roendo os tocos de unha e esperando o impensável: que Bernardo largasse a peituda no escuro para me procurar. Será que me viu sair? Nem disfarcei que ia ao banheiro. Comprei balas e fiquei andando de um lado para o outro, acendi um cigarro. A menina da bombonière olhou desconfiada porque eu não voltava para ver o filme. Acha que ele vem mesmo? Esquece! Bernardo não apareceu... Pra que voltar lá dentro? Me obriguei, Tom merecia ao menos minha consideração. Mas continuei aérea e fui chupando as balas de caramelo até acabar o pacote.

Fim da sessão. Levantei assim que começaram a passar os créditos e tentei justificar a pressa de correr para casa com uma dor de cabeça. Tom percebeu minha alteração, qualquer um perceberia. Evitei um interrogatório como pude: muitos beijos no caminho, uma cerveja logo depois... Haveria sexo. Sim, haveria. E vai ser como eu quero. Entendi perfeitamente por que puxei Tom para o chão duro e frio. Culpa de Bernardo, daquela noite que nunca ficava para trás, apesar de eu ter certeza de que era passado para ele. O passado de volta para mim...

Tom não entendeu, mas se deixou guiar por meu impulso. De olhos fechados me senti com Bernardo. Me entreguei. E tive a melhor sexo dos últimos meses. Faz assim. Não, é aqui, eu te mostro... Vai, passa a língua devagar... é tão bom... lambe mais... agora com o dedo... mais pra cima.... assim, assim, que gostoso! Espera, mais um pouco pra esquerda... Me chupa, vai. Aí, bem aí... isso! Assim eu vou... gozar, Ber... Tom! Eu vou gozar!!!

Por pouco não falo o que não devia – o nome Bernardo. Assim já era perseguição.


- Nininha, o que cê tinha?

- Nada.

- Cê tava tão cheia de fogo. Nunca te vi assim.
- É que a dor de cabeça passou.


Mas não o desejo por Bernardo. É só fechar os olhos...


terça-feira, 12 de outubro de 2010

relax, don't do it

Libertador é você deixar de fazer aquilo que você acha que está fazendo por vontade, mas é só obrigação misturada com hábito, tudo no piloto automático.