domingo, 4 de abril de 2010

retrato

a cama vazia

inunda o quarto

a colcha de linho

o último beijo

a chuva no vidro

os corpos distantes


a cama vazia

inunda o quarto

sábado, 3 de abril de 2010

Sessão de beleza

Drica fica louca quando chega para fazer a unha e sua manicure não está no salão. Explicam a ela que a garota teve que sair às pressas por causa do filho doente e só assim Drica sossega e aceita que outra cuide de suas unhas.
A outra aparece sem fazer alarde e Drica estranha, pois Nice costuma ser tagarela e quer saber logo a cor do dia. Para adiantar, Drica separa o esmalte nude e estende as mãos para começar o serviço. E puxa assunto:
- Qual o seu nome mesmo?
A garota de rabo de cavalo tem um olhar tímido.
- Pode colocar as mãos na água.
Drica insiste:
- E o seu nominho?
Ela não está muito à vontade, mas responde:
- É Rai.
Drica fica intrigada:
- Rai? Que diferente.
A manicure só consegue dizer:
- Pois é.
Drica espera antes de continuar.
- Mas é seu nome mesmo?
A garota tenta mudar de assunto:
- Pode tirar a mão da água.
Mesmo percebendo que a manicure dá sinais de resistência, Drica é quem não muda de assunto.
- É Rai de Raiane, não é?
Com o alicate pronto, a garota inicia o trabalho.
- Não, senhora. Não é.
Cada vez mais curiosa, Drica continua:
- Mas então que nome é? É só Rai mesmo?
A garota não sorri mais.
- Meu nome é Raimunda, senhora. R-A-I-M-U-N-D-A. Entendeu???
Drica não só entende como sente que a manicure tirou um bife enorme do seu polegar, que sangra. Para sair dali com o restante dos dedos intactos, resolve ficar quieta até o fim e deixar Rai...munda em paz.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

D i a l i v r e

manhã

noite

Forever young, I want to be forever young... do you really want to live forever?

Você aí do outro lado, que pensa em se manter longe dos resfriados, chegar aos 80 com carinha de 50 e ainda dar una mãozita ao sistema imunológico, entregue-se sem pudores ao sabor estonteante ARRRRRGH do alho. Segundo as últimas pesquisas, não me pergunte de onde, o alho tem a força, o alho tem o poder. Alho para presidente já! Pois então. Vi a reportagem na TV e fiquei pensativa. Comer alho já provoca um tremendo cacófato. E, depois de engolir o negócio, o hálito não se transforma em aroma de rosas, pois é quase certo que a pessoa vai exalar perfume de Alho Nº 5 por algum tempo. E aí, como fica? Não haverá vampiro crepuscular que aguente. Isso é bom ou é ruim? E os outros seres? Conviverão com o bafo diário?

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Todos os caminhos levam à Lagoa
Justificar
Já devo ter comentado que o Lagoa 330 é o ônibus que me leva até o serviço. Mas também leva muita gente à Lagoa da Conceição, o que é um perigo quando dá sol. Hoje, dia de céu limpo e véspera do feriadaço de Páscoa, tinha um gringo perdido no corredor. O homem loiro de quase dois metros e olhos claros parecia alemão, mas veio com sotaque espanhol perguntar pra galera de que lado batia menos sol. Como ninguém se manifestou, fiz o favor de dizer que era do lado direito, o lado em que eu estava. Parêntese - sempre vou do lado direito, pra não pegar sol. E vou quieta, ouvindo meu som. Ele agradeceu e emendou com: "Então posso sentar do seu lado?". Eu ia dizer que não na cara do homem de quase dois metros? Sendo o ônibus público, eu disse "Sim", sabendo que ia me arrepender na sequência. E como! O cara ocupava um banco e meio, e me obrigou a dar aquela espremida contra o vidro, agoniada não só com a presença espaçosa, mas com o cheiro dele. Cheiro de suor, de falta de banho. Aí ele comentou "Que calor, não?", achando que fôssemos travar um diálogo amigável. Pensei "Que fedor, não?" e olhei pra fora. O moço se calou. Bem disfarçado, fingiu que esticava o braço pra tocar o teto, virava um pouco a cabeça e dava aquela cafungada no sovaco. Direito, depois esquerdo. Uma vez, mais uma, e uma última pra ter certeza. Convencido de que eu não queria falar com ele por causa do futum, o gringo se mudou. Foi pegar o sol que não queria do lado esquerdo. Melhor pra mim que consegui respirar de novo e descontrair a musculatura. A antissocial.